Aparecem primeiras fissuras no governo da Iugoslávia Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, 26 (AE) - A determinação dos países da Organização para o Tratado Atlântico Norte (Otan) de continuar as operações militares contra a Iugoslávia, manifestada no fim de semana, em Washington, durante o cinquentenário da aliança atlântica, parece estar influenciando certas áreas políticas, principalmente da oposição ao presidente sérvio, Slobodan Milosevic, em Belgrado.
Esses setores da oposição haviam aderido a Milosevic muito recentemente, após o malogro das negociações de paz de Rambouillet e na véspera do início dos ataques aéreos, quando se formalizou um governo de união nacional, diante das ameaças ao país.
As primeiras fissuras no regime político de Belgrado tornaram-se mais evidentes com as declarações que Vuk Draskovic, atual vice- primeiro-ministro sérvio, fez por meio de uma emissora de TV sérvia, criticando - sem citar seu nome - Milosevic, o sistema de propaganda do regime, e defendendo um compromisso com os países membros da aliança, tendo como avalistas a Organização das Nações Unidas e a Rússia.
Em entrevistas, Draskovic admitiu que está pronto para aceitar a presença de uma força da ONU, que poderia incluir tropas dos países da Otan se necessário.
Essa é a primeira vez que um dirigente sérvio, antigo oposicionista, admite formalmente a necessidade de um acordo com a Otan para a suspensão dos bombardeios. Draskovic concedeu no domingo duas entrevistas seguidas - à emissora de TV sérvia Studio B e à rede americana de TV CNN.
Hoje, Draskovic denunciou a tomada da TV Studio B pelo Exército, poucas horas depois de ele ter criticado o governo. "Estou muito desapontado pelo fato de o Exército ter invadido a Studio B e ordenado a veiculação direta dos programas da TV estatal", declarou.
Durante as entrevistas, Draskovic, principal dirigente do Movimento Sérvio de Renovação (direita nacionalista), também havia manifestado sua indignação diante do declínio da propaganda de seu país, particularmente das emissoras de TV e de rádio estatais, que proferem insultos contra os países da aliança.
Draskovic referia-se, entre outras coisas à utilização de termos como "prostitutas" e "homosexuais" utilizados para designar as tropas da Otan. Em certo momento, ele acusou a imprensa oficial de pretender lançar areia nos olhos da opinião pública iugoslava, apresentando a reação da diáspora e de alguns intelectuais europeus contrários aos ataques da Otan como se representasse a opinião pública européia. Dirigindo-se à população sérvia, Draskovic não poderia ter sido mais claro: "A opinião pública mundial está contra nós."
Segundo ele, é preciso acabar com a ilusão de que os sérvios poderão derrotar as forças da Otan, advertindo os iugoslavos que não se deve esperar também nenhuma ajuda financeira ou militar mais substancial da Rússia, que só tem condições de oferecer seu apoio político, além de apresentar-se como um mediador ideal, aceito pelos sérvios e pelos países da aliança.
Draskovic, segundo analistas, pode estar-se preparando para uma eventual substituição de Milosevic ao fim dessa guerra, surgindo como o homem providencial aos olhos da aliança, no futuro, quando vai ser preciso desenvolver uma outra difícil negociação, tão ou mais custosa do que a destruição da infra-estrutura do país pela guerra e o financiamento da reconstrução da Iugoslávia.





