Rio- A extensão do blecaute expôs a fragilidade de um sistema de abastecimento quase integralmente dependente da geração hidrelétrica. Pelos dados do Operador Nacional dos Sistemas (ONS), esta semana 95,16% da energia consumida foi gerada por hidrelétricas - Itaipu respondeu pela parcela de 78,18% desse total. A opção brasileira para o fornecimento elétrico divide especialistas.
''Eram 22 horas e Itaipu estava gerando tudo o que podia. Botar toda Itaipu gerando pode ser correto do ponto de vista energético, já que não tem reservatório e não é bom desperdiçar água, mas é arriscado'', diz o físico Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coordenação de Pós-Graduação em Engenharia da Coppe e ex-presidente da Eletrobrás. Ele defende o uso de ''redes inteligentes'', que evitem o efeito dominó que ocorreu anteontem, com um número maior de pontos controlados. É o que o mercado chama de ilhamento. ''Isso foi estudado, discutido, mas não implementado.''
O apagão foi provocado por uma sobrecarga no sistema, pelo aumento de demanda residencial, na opinião do especialista em infraestrutura Adriano Pires, que é mais contundente nas críticas à condução da política energética. ''Está havendo barbeiragem de operação. Às 22 horas, não há porque manter as 20 turbinas de Itaipu ligadas. É populismo manter modicidade tarifária, excluindo as usinas térmicas, que deviam estar também na base do sistema'', diz ele, creditando ao aumento no uso de aparelhos, como ar-condicionado, a sobrecarga. ''O governo estimulou muito o consumo da linha branca. A linha de transmissão tem um limite de capacidade e não aguentou.''
O professor Niromar Alves de Rezende, do curso de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Paraná, defensor do sistema interligado, acredita que o apagão mostrou que o sistema de proteção contra falhas precisa ser melhorado. ''Não considero o sistema tão vulnerável. O que acontece é que o peso de Itaipu é muito grande e qualquer perda vai repercutir em todo sistema interligado'', disse.
Para ele, órgãos gestores de energia, como o Ministério das Minas e Energia, empresas e o ONS, devem fazer um esforço conjunto para melhorar a proteção do sistema, de forma a assegurar um ''ilhamento inteligente'', ou seja, o isolamento do problema, mas com a garantia de que o sistema cascata não se propague.
Já o professor Antonio Ivan Bastos Sobrinho, dos cursos de Engenharia Elétrica da Universidade Positivo e da Universidade Tecnológica do Paraná, acredita que a causa do problema é o ''desmatamento'', ou seja, alterações climáticas que causam fenômenos atmosféricos como temporais que, por sua vez, rompem e derrubam linhas elétricas.
''Com o desmatamento, as correntes de ar não encontram obstáculos naturais, a massa de ar aumenta e chega com força capaz de derrubar uma torre de transmissão'', diz. Reforçar as torres, para ele, é uma solução de custo muito alto. ''Outra solução é plantar árvores'', disse. (Colaborou Maigue Gueths)

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