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Apagão do Lattes é alvo de críticas

Problema que derrubou as plataformas Lattes e Carlos Chagas nos últimos dias é avaliado como reflexo do enfraquecimento e da desvalorização da ciência brasileira

Lucas Catanho - Especial para a FOLHA
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA

“A plataforma Lattes é mantida pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), pertencente ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Trata-se de uma das principais agências de fomento à pesquisa do Brasil e que ultimamente vem sofrendo com graves cortes no seu orçamento, prejudicando a produção de diversas pesquisas e o pagamento de bolsas para milhares de pesquisadores do país”, critica o professor de educação física André Ulian Dall Evedove, doutorando em saúde coletiva na UEL (Universidade Estadual de Londrina). 

 

 

Arquivo Pessoal 

O pesquisador André Dall Evedove destaca que o valor das bolsas está congelado desde 2013
Arquivo Pessoal O pesquisador André Dall Evedove destaca que o valor das bolsas está congelado desde 2013 | Acervo Pessoal
 

Sobre a política de incentivo à pesquisa científica, o pesquisador entende que a pandemia poderia ser a oportunidade para o governo valorizar a pesquisa científica brasileira, por meio do desenvolvimento de pesquisas para monitoramento e produção de vacinas contra o vírus.  

  

“Entretanto, acredito que a valorização da ciência não seja uma das prioridades desse governo. Por exemplo, tem saído na imprensa um possível aumento de R$ 2 bilhões para R$ 4 bilhões (de acordo com que o presidente falou que vai aprovar) de recursos públicos para o financiamento de campanhas eleitorais em 2022. Será que esse valor não seria mais bem investido no fomento à pesquisa? Esse ano o CNPq completou 70 anos e o que a agência ganhou de presente? O maior corte do século 21 no seu orçamento.” 

  

Ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, o CNPq tem em 2021 o menor orçamento pelo menos desde 2012, mesmo em valores nominais. A dotação atualizada do órgão para este ano é de R$ 1,2 bilhão. Entre 2013 e 2015, por exemplo, o orçamento executado superou os R$ 2 bilhões. 

  

O pesquisador acrescenta que a principal dificuldade enfrentada por ele, assim como por todos os estudantes de pós-graduação que recebem bolsas de estudo, são os valores desatualizados. “Desde 2013 não há reajustes nesses valores. No geral, quem faz mestrado recebe uma bolsa de R$ 1.500 por mês, enquanto que o de doutorado recebe R$ 2.200”, pontua.  

  

De acordo com a Agência Nacional de Pós-Graduação, se as bolsas fossem corrigidas apenas pela inflação e correção monetária, os valores das bolsas seriam de R$ 3.555,35 e R$ 5.437,61, respectivamente.  

  

“Dentro de um contexto onde tudo sobe, como os preços dos produtos da cesta básica, dos combustíveis, dos aluguéis etc., isso acaba afetando o custo de vida de qualquer cidadão, não sendo diferente no meu caso. Cabe destacar ainda que grande parte de estudantes de pós-graduação não recebe bolsa de estudo e isso ficou mais difícil com os cortes feitos pelo governo federal. As bolsas são muito importantes para que possamos nos dedicar exclusivamente à produção de pesquisas científicas”, conclui. 

  

SEM PERDAS 

  

O governo federal garantiu que o problema que derrubou as plataformas Lattes e Carlos Chagas não provocou perda de dados. 

  

Em vídeo divulgado na tarde de quarta-feira (28), o presidente do CNPq, Evaldo Vilela, diz que há backup das informações contidas nas plataformas, que são as principais da pesquisa brasileira. A perda de informações era um temor entre pesquisadores e funcionários do órgão. 

  

"O backup das informações está garantido. Sabemos que essa é grande preocupação e foi nossa prioridade ter certeza dessa garantia para poder informar o mais rápido possível toda comunidade", disse ele no vídeo. 

  

Vilela pediu desculpas pelos transtornos e reforçou que não haverá atrasos nos pagamentos de bolsas. Os prazos para ações como a submissão de propostas, prestação de contas e de vigência das bolsas, por sua vez, estão suspensos e serão prorrogados. 

  

As plataformas Lattes e Carlos Chagas vivem um apagão desde sexta-feira passada (23) após uma falha na área de tecnologia. O Lattes é um banco de dados com todos os currículos de pesquisadores, e ações como a aprovação de bolsas dependem da consulta à plataforma. De acordo com Vilela, o restabelecimento da plataforma é a maior prioridade. 

  

Já pela Carlos Chagas é que se operacionalizam chamadas públicas e editais de fomento à pesquisa, gestão e pagamento de bolsas. Cerca de 84 mil pesquisadores são financiados com recursos do CNPq, mas outros órgãos de pesquisa também realizam operações ancoradas no Lattes. 

  

O presidente do CNPq confirmou que o apagão dos sistemas foi provocado pela queima de um dispositivo em um equipamento que tem a função de controlar os servidores onde as plataformas ficam hospedadas. Isso ocorreu durante a migração dos dados para um novo servidor. Ele descartou a ação de um hacker. 

  

Segundo o diretor de Gestão e Tecnologia do CNPq, o backup está sendo instalado no novo servidor. "São quase 7 milhões de currículos”, contabiliza. Ele declarou que a instalação deve ser concluída até esta sexta-feira (30).  

 

Procurada pela reportagem, a Seti (Superintendência Geral de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) declarou que o órgão ideal para se pronunciar sobre o assunto seria a Fundação Araucária. A fundação, por sua vez, também não respondeu aos questionamentos e indicou o Conselho Paranaense de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós Graduação, que também foi contatado pela reportagem, mas não respondeu. (Com Folhapress) 

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