'Aos pouquinhos, vamos ocupando esses cargos'
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de julho de 2015
Mariana Franco Ramos <br> Reportagem Local
Curitiba Primeira tenente a assumir o comando de um pelotão da Rondas Ostensivas Tático Móvel (Rotam), da Polícia Militar (PM) do Paraná, Anahy Biancolini Nóbrega, 26, acaba de fazer história. Apesar de a corporação, de 161 anos, contar hoje com mulheres em todos os postos e graduações, a Rotam, braço destinado a atender as ocorrências de maior potencial de risco, era até pouco tempo atrás vista como um ambiente estritamente masculino. Entre as funções desempenhadas pela guarnição estão prisão de quadrilhas do crime organizado, segurança de áreas conflagradas e repressão de assaltos com reféns, latrocínios e homicídios.
"Eu acho que as dificuldades são inerentes ao ser humano, independentemente de você ser homem ou mulher. Não senti nenhum preconceito aqui no (20º) Batalhão; muito pelo contrário. Eu sempre fui bem acolhida por eles (demais oficiais)", afirmou a tenente, formada pela Academia do Guatupê (APMG), de Curitiba, em 2011, e empossada no cargo no início do mês. Além dela, passou a integrar a unidade, pertencente ao 1º Comando Regional da PM, a soldado Jéssika Motta Dias. Ambas farão companhia à também soldado Marcia Falkievicz, que há dois anos integra o pelotão.
Segundo Nóbrega, o fato de somente 8,15% do total do efetivo da PM ser composto por pessoas do sexo feminino - muitas das quais responsáveis por funções administrativas - não deve ser visto como impeditivo para quem deseja crescer na profissão. "Ainda existem algumas barreiras que precisam ser quebradas, mas a gente já teve uma grande evolução. Aos pouquinhos e respeitosamente, vamos ocupando esses cargos", opinou.
Filha de dois coronéis, atualmente na reserva, a nova comandante da Rotam buscou inspiração na própria família para progredir dentro da carreira. Sua mãe, Miriam Biancolini Nóbrega, foi a primeira coronel da PM paranaense. "Eu tive muito exemplo em casa. A educação que recebi me ajudou a conquistar mais esse objetivo", disse. Miriam ingressou no órgão em 1977, data de criação do pelotão de Polícia Militar Feminina. Na época, com a inclusão de 42 recrutas, a PM do Estado passou a ser a segunda do País a permitir o ingresso de mulheres, atrás somente de São Paulo.
No começo de julho, o Ministério Público (MP) estadual divulgou levantamento mostrando que a violência de gênero foi a causa de 20% dos homicídios qualificados (consumados ou tentados) denunciados nos últimos três meses. O Estado também registrou, conforme dados do 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em novembro do ano passado, 3,6 mil estupros em 2013, o que significa uma taxa de 32,5 para cada 100 mil pessoas. Em todo o Brasil, foram mais de 50 mil casos.
Questionada pela FOLHA se a existência de um número maior de mulheres na PM poderia ajudar a combater esses crimes, uma vez que as vítimas se sentiriam mais à vontade em relatar o ocorrido, Anahy Nóbrega argumentou que a corporação "faz a primeira frente", mas que precisa atuar de forma integrada com outros órgãos. Ela reiterou, porém, que tanto a Rotam como as demais guarnições da PM procuram contar com mulheres, além de homens, em suas viaturas. "Isso ajuda, porque a pessoa pode se sentir melhor conversando com um ou com outro".