Washington, 25 (AE-AP) - Enquanto a Otan comemorava seus 50 anos e jogava sua força sobre a Iugoslávia, apareciam fissuras na brava frente. Numa aliança poliglota que não mais confronta o urso soviético, não é fácil conseguir a unidade.
"Esta cúpula foi uma impressionante demonstração de unidade apesar de alguns céticos terem temido que não seria inteligente realizar uma cúpula em tempo de guerra", disse o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, eleito no ano passado e por isto novo no bloco.
Mas nem mesmo Schroeder, como o presidente francês, Jacques Chirac, se submeteu à liderança linha dura do presidente Bill Clinton e de seu leal amigo, o primeiro-ministro britânico Tony Blair.
"Intervenções militares têm de ser como regra legalizadas por um mandato da ONU", afirmou o líder alemão, refletindo uma visão generalizada de que a Otan não tem autoridade para parar navios mercantes levando petróleo para a Iugoslávia e para enviar forças de paz armadas para Kosovo sem pelo menos a aprovação da ONU.
Enquanto uma pequena Otan podia fechar fileiras facilmente para confrontar a União Soviética, a aliança agora de 19 membros, com suas portas abertas para ainda mais membros, tem que lutar para trabalhar unida quando as questões não mais são preto e branco.
Mesmo a normalmente hermética aliança entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha foi enfraquecida pela questão de se a Otan deveria enviar tropas terrestres para a Iugoslávia a fim de aplicar um nocaute depois de mais de um mês de bombardeios da Otan.
A França e a Grã-Bretanha tinham assinalado antes da cúpula que favoreciam o uso de tropas terrestres no inconcluso conflito, mas Clinton prefere por enquanto aprofundar a campanha aérea; e então a contenciosa questão foi engavetada.
Não houve jeito, entretanto, de esconder as fissuras sobre a iniciativa dos EUA de montar um bloqueio a fim de impedir que fornecimentos de petróleo cheguem à Iugoslávia. Parar navios neutros normalmente é um ato de guerra, e Chirac expressou suas reservas.
Insistindo também na aprovação do Conselho de Segurança da ONU para operações de paz, Chirac disse: "A Otan não pode e não será capaz de agir sem a autorização desta organização internacional".
Os Estados Unidos afirmam que a autoridade de interceptar petroleiros no mar e enviar tropas de paz da Otan para Kosovo está contemplada em um embargo da ONU e outras resoluções do Conselho de Segurança.
Perguntado numa entrevista coletiva se a Otan necessitaria de uma nova resolução para intervir além das fronteiras de seus membros, o secretário-geral da aliança, Javier Solana, afirmou: "Não".
Basicamente, prevaleceu a visão dos EUA sobre forças de paz, mas os comunicados e outras declarações que a Otan emitiu na cúpula refletem algumas das divergências que marcaram as deliberações privadas dos líderes.
Inicialmente, a administração Clinton tinha em mente uma força da Otan, suplementada por tropas da Rússia e de alguns outros países não-membros.
Isto foi transformado na cúpula para um comunicado dando conta que "a Otan permanece pronta para formar o núcleo de um força militar internacional".
Numa pouco noticiada nota discordante, entretanto, a Turquia forçou os aliados a garantir que ela e outros aliados que não fazem parte da União Européia sejam consultados antes de tropas da Otan serem enviadas numa ação de emergência.
A Grécia, que veio à cúpula mais sensibilizada que qualquer outro dos aliados com um potencial cessar-fogo e outras propostas sugeridas pelo presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, acabou concordando com a posição não compromissada da Otan em relação a Kosovo.
O primeiro-ministro italiano, Massimo DAlema, que também era considerado um pouco fora de passo antes da cúpula, também concordou.
Aviões de combate italianos estão participando dos ataques contra os sérvios e, dramaticamente, também está a Luftwaffe alemã, a primeira campanha de combate das forças da Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.
A Hungria, um dos três novos membros da aliança, também está entre os mais ansiosos. "A questão é extremamente complicada para a Hungria", disse o primeiro-ministro Viktor Orban, referindo-se claramente aos 300.000 húngaros étnicos que vivem na província sérvia de Vojvodina. Existe a preocupação de que eles seriam colocados em risco por um ativo apoio da Hungria à ofensiva militar da Otan.
Mas apesar de tudo, os 19 aliados acabaram razoavelmente unidos.
"Não é mais difícil do que teria sido no passado", disse um oficial da Otan. "Os 19 alcançaram um verdadeiro acordo".
O grande teste para a unidade poderia estar logo na esquina, entretanto, caso a Rússia decida desafiar o bloqueio de petróleo.

mockup