Aos 14 anos, ele já fazia samba
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domingo, 14 de novembro de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 14 (AE) - Carioca de Inhaúma, bairro do subúrbio do Rio, filho e neto de músicos - seu pai, um marinheiro sergipano, tocava cavaquinho e seu avô, flauta e piano -, José Flores de Jesus, o Zé Kéti, nasceu em 1921 e aos 14 já fazia samba. O apelido de infância, Zé Quieto, daria no nome artístico
depois da substituição do Q pelo K para dar sorte.
Aos 24 anos integra oficialmente a ala dos compositores da Escola de Samba da Portela e, um ano depois, tem uma de suas composições gravada, Tio Sam no Samba. O sambista de chapeuzinho de aba caindo na testa - sua marca registrada - ficaria conhecido a partir de 1954, quando Jamelão gravou o seu samba Leviana.
Mas o grande sucesso viria mesmo no ano seguinte com o samba A Voz do Morro, composto especialmente para o filme Rio 40 Graus
de Nelson Pereira dos Santos, do qual participou como ator e assistente de câmera. O cineasta convidaria Zé Kéti para participar também de Rio Zona Norte.
Vive seu período de ouro na década de 60, com o sucesso de sambas como Se Alguém Perguntar por Mim, gravado por Nara Leão e Elisete Cardoso, O Samba não Morreu, Paulinho da Viola, Amor Passageiro, Linda Batista, e Mascarada, Jair Rodrigues. E ainda emplacou Meu Pecado, Malvadeza Durão e um de seus maiores sucessos, Máscara Negra.
Nesse samba, Zé Kéti invertou os tradicionais papéis do arlequim (representante da alegria) e do pierrô (da tristeza). "Já não suportava mais ver o pierrô sofrendo e o arlequim triunfando insensível", declarou o compositor, com seu humor típico de malandro carioca. O samba inspirou o nome do televisor "máscara negra" - que tinha como acessório um protetor de tela negro. E Zé Kéti virou garoto propaganda do aparelho, com o samba homônimo usado como trilha sonora.
Em 1965, seu samba Opinião deu nome ao antológico show do Teatro de Arena no Rio, do qual participou ao lado de Nara Leão (depois substituída por Maria Bethânia) e do compositor maranhense João do Vale. A platéia entrava em êxtase com o samba Nega Dina, um magistral quadro de costumes carioca, gravado com Diz Que Fui por aí, feito em parceria com Hortênsio Rocha.
Nas décadas de 70 e 80, amargou um certo ostracismo no meio artístico. Em 1996, o cantor Zé Renato jogou novamente os refletores sobre ele com a gravação de um disco inteiramente calcado no repertório do sambista. Na época, Zé Kéti afirmou ter muitos sambas inéditos e revelou jamais ter sido abandonado por Paulinho da Viola, que sempre admirou o mestre responsável pelo apelido "da Viola".
O primeiro grande reconhecimento de sua obra ocorreu só no ano passado, quando venceu o 18.º Prêmio Shell de Música. "Foi uma grande surpresa, nunca recebi prêmio em lugar nenhum, mas o bom é que, depois do prêmio, vem a mulherada toda", comemorou na época.


