Nova York (AE-NEWSWEEK) - A AOL Time Warner vai dominar a Net global? Não tão depressa. Cada concorrente da nova gigante no planeta está perguntando se eles precisam pensar em ponto maior para sobreviver. E, fora dos Estados Unidos, a AOL sempre perdeu para a companhia telefônica local ou por causa de seus próprios passos em falso.
Que o mundo contemple a poderosa AOL Time Warner. É um colosso
um salto, uma companhia que - se a fusão for em frente - vai servir de modelo na Internet para o mundo todo, certo? Bem, futuramente talvez. A curto prazo, o quadro é bem mais complexo.
É verdade que muitas ações da velha - e da nova - mídia tiveram alta na semana passada, por causa da teoria de que outras companhias vão logo unir-se, imitando a nova líder na Internet. Mas existem ocultas algumas grandes diferenças locais no modo como essa indústria global está evoluindo.
Ninguém mais que a própria AOL está ciente dessas mudanças. Trabalhando com uma impressionante lista de parceiros - entre eles a Bertelsmann na Europa, a China.com na China, a Mitsui e a Nikkei no Japão e o Cisneros Group na América Latina -, a AOL agora se gaba de ter 3,2 milhões de assinantes internacionais. No entanto, continua em segundo lugar na maioria dos países. As ambições da AOL são tolhidas por poderosos ex-monopólios telefônicos locais - que têm uma clientela própria para seus serviços Internet -, pela exigência dos clientes que querem conteúdo local e por suas próprias falhas administrativas.
Na Inglaterra, uma empresa nova chamada Freeserve superou de longe a AOL no ano passado por ser pioneira no acesso gratuito à rede. (A seguir, a AOL contra-atacou.)
No Brasil, onde a AOL lançou seu serviço em novembro passado com uma ofensiva publicitária que usou celebridades, centenas de novos clientes desembrulharam seus discos AOL e só encontraram o mais recente lançamento do grupo de samba Raça Negra.
A Europa, América Latina e ásia passaram por seus frenesis acionários motivados pela Internet no ano passado. Mas companhias e mercados ainda estão um par de anos atrás dos existentes nos EUA. Com o valor de mercado de companhias não norte-americanas na Internet correspondendo a apenas uma fração do valor da AOL, ainda não está à vista uma empresa européia ou asiática equivalente aos US$ 172 bilhões do negócio AOL-Time Warner. Mas negócios de vulto, moldados por condições locais, talvez sejam acelerados pelo exemplo americano. Todo mundo, da Vivendi (a enorme companhia francesa de infra-estrutura que está relançando-se como empresa de comunicações) até gigantes da telefonia móvel como a Vodafone está-se acotovelando em busca de uma posição, e as apostas vão só aumentar. Os investidores que contribuíram para a alta do preço das ações da Pearson (a editora do Financial Times no Reino Unido) em 15% logo depois que o negócio da AOL foi anunciado não estavam totalmente iludidos. "O mundo está-se concentrando", disse a diretora-executiva da Pearson, Marjorie Scardino, especialista em mídia nova (ela é uma das diretoras da AOL).
Acredita-se que a Pearson venha a ser uma participante da tendência. Até os que provocaram alta brusca nas ações da companhia de televisão TVB, de Hong Kong, talvez sejam recompensados. "Esse negócio faz com que todos pensem de outra forma no futuro", disse Daniel Chiang, presidente do Sina.com, principal portal Internet em língua chinesa. Um homem que dá muito que pensar é Thomas Middelhoff, diretor-executivo da Bertelsmann, a gigante alemã de mídia.
Middelhoff, entusiasta da Internet de primeira hora, articulou o acordo que tornou a Bertelsman o principal sócio da AOL na Europa. Com um acordo que foi certamente o prenúncio do surgimento da AOL Time Warner, as duas companhias são sócias da AOL em partes iguais, na Europa. A Bertelsmann, cujos bens na Europa incluem o grupo francês de revistas Prisme Presse e a revista alemã Stern, fornece à AOL o conteúdo em linguagem local de que ela precisa na Alemanha e na França. Em troca, tem um novo canal de distribuição para seus livros e música. Mas agora o futuro da AOL Europe fica em dúvida. A Bertelsmann (que também é dona da Random House, nos EUA) é grande concorrente da Time Warner - motivo pelo qual Middelhoff disse na semana passada que talvez renuncie ao conselho administrativo da AOL. "A AOL talvez precise encontrar outro parceiro que lhe forneça conteúdo na Europa", diz Anja Stemmer, analista na Jupiter Communications em Munique.
A AOL pode simplesmente substituir os produtos Time Warner? Não, se quiser deixar seus clientes contentes. Excetuada a CNN, a Time Warner não tem muito que oferecer aos europeus. Na verdade, nenhuma outra companhia européia de mídia é tão atraente quanto a Bertelsmann - um fato que a AOL parece reconhecer.
"Temos sólida parceria com a Bertelsmann, e isso não vai mudar", diz o diretor-executivo da AOL Europe, Andreas Schmidt. Klaus Eierhoff, membro do conselho de administração da Bertelsmann, também nega que o negócio fechado nos EUA seja um retrocesso. "O que você quer dizer?", pergunta. "Começamos ligando multimídia e conteúdo cinco anos atrás. Agora a AOL quer dar o próximo passo ligando-se à Time Warner. Este é o movimento lógico dos mercados" - e uma empreitada principalmente americana, acrescenta Eierhoff.
"A lição para nós é que precisamos agir mais depressa. A rapidez é a chave." Rapidez, sim. Mas também o porte, cada vez mais. Para a Bertelsmann, isso pode representar um problema futuro, pois, sendo companhia de capital fechado, não pode participar de megafusões sem que a Bertelsmann Foundation (criada pela família Mohn, a fundador) perca seu controle.
No entanto, a maioria estará procurando sócios ansiosamente. David Lui, diretor da Shroder Investment Management em Hong Kong
diz que a AOL Time Warner "vai forçar as pessoas a perceber que precisam ser grandes. Já não se pode ser participante de nichos."
A idéia calou fundo. Nos últimos seis meses, por exemplo, a China.com fez 23 aquisições e negócios de parceria com empresas que vão de serviços e-mail (correio eletrônico) a varejistas on-line. Com efeito, todos os maiores participantes da Internet na ásia - Softbank e Kikari Tsushin (Japão), China.com e Pacific Century CyberWorks (Hong Kong) e Creative Technology (Cingapura) têm investido maciçamente na compra de empresas menores.
"Se 1999 foi o ano das aberturas, 2000 vai ser o ano dos fechamentos", diz Hanson Cheah, diretor-executivo da AsiaTech Ventures, companhia de investimento de capital de risco com matriz em Hong Kong. "Não vamos ver fusões gigantescas, mas estamos começando a ver a erradicação de empresas que tinham aspirações."
Na Europa, os predadores serão provavelmente companhias telefônicas, que andam atarefadas criando provedores de serviços Internet (ISPs) e preparando-se para o lançamento de ações ao grande público. A Deutsche Telekom planeja oferecer participação acionária na T-Online, um ISP dela própria, ainda este ano.
Na Espanha, o lançamento público, pela Telefónica, de ações da Terra Networks (o ISP da companhia) está tendo enorme êxito. Tais companhias também andam à espreita de negócios. Filippo Lo Franco, analista na BNP Equities em Paris, informa que os europeus começam a ver de modo diferente o conteúdo de mídia.
Considerados há muito como "cultura", livros, filmes e programas de TV agora são também "entretenimento". Lo Franco diz: "É uma evolução importante." Mas isso não é novidade para Rupert Murdoch, cuja News Corp. é uma das maiores companhias mundiais de mídia.
Também ele tem alianças Internet, mas não quer dizer que esteja disposto a se fundir com uma companhia Internet. Circulou com insistência a especulação de um possível negócio com a Yahoo!, maior concorrente da AOL - tanto assim que o preço das ações da News Corp. dispararam no começo da semana passada.
"Não, com os diabos!", disse Murdoch. "Não vemos nada ali por um preço atraente." Ao contrário de Levin, da Time Warner, Murdoch não se considera um comprador; não quer transferir poder a um iniciante talentoso. Mas, a exemplo de outros executivos da mídia, terá de pensar mais em dividir tal poder.

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