São Paulo, 08 (AE) - Um perueiro tenta fugir da fiscalização, engata a marcha à ré, trafega perigosamente na direção de outros carros, sobe na calçada e bate num poste. Acidentes assim, semelhantes ao que deixou três mortos e oito feridos na sexta-feira, têm se repetido a cada blitz da São Paulo Transportes (SPTrans) e Guarda Civil Metropolitana (GCM) contra lotações clandestinas. Na manhã de hoje um deles aconteceu no Morumbi, zona sul de São Paulo, e, por sorte, só causou desespero.
Ao perceber que estava encurralado pelos carros dos fiscais na Avenida Morumbi, Laelson de Souza, de 32 anos, que fazia a linha Paraisópolis-Brooklin, engatou a ré e acelerou. Desviou de um motoboy e acertou o poste em cheio. A Kombi, lotada, tinha idosos, crianças e uma gestante entre os passageiros. Todos desceram chorando, trêmulos, mas ninguém se feriu.
"Vou perder meu filho", gritava Cleonice Santos de Abreu, de 21 anos, levando as mãos à barriga. Teve de ser amparada por fiscais. "A gente gritava para ele parar, mas ele acelerava, acelerava." Ao lado, Giovana, de 4 anos, soluçava, agarrada ao pescoço da mãe, Maria Rosa Nascimento Alves, de 38 anos. "Quando vi que ele ia bater, tranquei os olhos, abracei minha filha e esperei a morte", disse Maria. Ela prometeu nunca mais usar peruas, apesar de, como Cleonice, admitir que depende delas, porque passam com mais frequência do que os ônibus.
Souza disse ter acelerado porque entrou em desespero. "Eu me assustei porque vi que eles vinham na minha direção daquele jeito", afirmou. Ele transportava passageiros, clandestinamente, havia 2 anos. Tem carta de habilitação da categoria B, que não permite dirigir profissionalmente. Desempregado, Souza disse que ganhava R$ 1,5 mil por mês, rodando das 5 às 19 horas.
Perde a porta - Em outra abordagem, na Vila Prudente, zona leste, o medo do perueiro Rafael Martins, de 48 anos, levou-o a tentar uma fuga com a porta aberta. Resultado: a porta caiu na pista e o veículo continuou. Testemunhas contaram que ele levava seis passageiros; alcançado mais à frente pelos fiscais, Martins negou. "Estava sem passageiro e a porta está com um probleminha, não fecha, mas dá para rodar."
Pela manhã foram apreendidas 20 peruas. Além das manobras arriscadas, os guardas civis extrapolaram o limite legal, mas com sucesso. Diante do Museu do Ipiranga, zona sul, interceptaram uma picape S-10 roubada, trocaram tiros com os dois ladrões e conseguiram prendê-los.
Apenas três peruas ilegais foram apreendidas à tarde. Outras sete legalizadas foram enviadas ao pátio da SPTrans por estar com condutores não habilitados ou excesso de passageiros. A operação concentrou-se em São Miguel Paulista, Itaim Paulista, Artur Alvim e Penha, na zona leste.
O episódio mais tenso ocorreu em São Miguel. Vladimir da Silva Morfório, de 31 anos, recusou-se a entregar sua Kombi e quebrou a chave. Depois pegou seu filho, de 1 ano, usando-o como escudo. "Daqui só saio com a Polícia Militar." Afirmando ser irmão de um policial, Morfório negou ser perueiro. "Sou cabeleireiro." Foi levado ao 22.º Distrito Policial, acusado de desacato.

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