Ao MP, Nicéa acusa malufistas e secretários de Pitta
Ao MP, Nicéa acusa malufistas e secretários de Pitta16/Mar, 21:14 São Paulo, 16 (AE) - No depoimento prestado ao Ministério Público na segunda-feira, a primeira-dama Nicéa Pitta acusou o prefeito Celso Pitta de pagar propina a vereadores e aceitar a influência do ex-prefeito Paulo Maluf. Também faz acusações contra nomes de peso do malufismo, como Reynaldo de Barros e Edevaldo Alves da Silva, e do primeiro escalão da gestão Pitta, casos de Carlos Augusto Meinberg e Jorge Pagura. A seguir, os principais trechos: DENÚNCIAS No ano de 1998, (Nicéa) passou a ouvir várias denúncias de pessoas que a procuravam no centro de apoio (Casa, que ela presidia) dizendo sobre a existência de cobranças de propinas por parte de fiscais da Prefeitura. A declarante comunicava essas denúncias ao seu ex-marido, Celso Pitta, e também ao secretário do Governo, Edevaldo Alves da Silva. Nem seu ex-marido nem o secretário tomaram qualquer iniciativa no sentido de orientá-la sobre o encaminhamento dessas pessoas a departamentos da Prefeitura para as providências cabíveis. SELOS DO CASA Em 1998, soube por um funcionário do centro de apoio (Casa) que o centro tinha como uma de suas fontes de recursos a venda de selos - imobiliárias e construtoras, quando faziam propaganda e publicidade de lançamentos de imóveis, basicamente panfletagem nas ruas, deveriam adquirir selos em um órgão municipal. A declarante questionou o secretário de Governo, Edevaldo Alves da Silva, que então disse, de forma brusca, que ela não deveria se envolver com isso. A declarante foi ao gabinete de seu ex-marido e comunicou-lhe o fato. Pitta chamou Edevaldo e determinou que fosse feita uma auditoria. Em razão da auditoria culminou-se por não mais a Prefeitura exigir o pagamento destes selos. No mesmo dia em que a declarante levou esse fato ao conhecimento do secretário, compareceu à noite em sua residência o sr. Flávio Maluf, filho do ex-prefeito Paulo Maluf, que lhe disse que ela não deveria ter se envolvido com essa questão; no domingo subsequente, o então vereador Hanna Garib compareceu à residência da declarante e também teceu comentários no mesmo sentido. FLáVIO MALUF Flávio Maluf não exercia qualquer cargo na administração, mas tinha grande influência, inclusive em relação ao seu ex-marido. Flávio comparecia várias vezes à residência da declarante, ocasião em que indicava nomes para ocupar cargos de confiança, tendo inclusive indicado o sr. Ricardo Castelo Branco para ocupar o cargo de presidente da Anhembi Turismo. Ricardo já vinha da administração de Paulo Maluf e foi mantido por seu marido atendendo à solicitação de Flávio. Vários funcionários da Anhembi foram nomeados pelo secretário do Governo, Edevaldo, atendendo a pedido de Flávio, sendo que essas nomeações tinham o aval de Celso Pitta. A declarante informa que as contratações de fantasmas, desde a administração de Paulo Maluf e também em continuidade na gestão de seu ex-marido, se davam através de Edevaldo, depois substituído por Carlos Augusto Meinberg, que continuou contratando fantasmas. A declarante se recorda de ter ouvido algumas conversações entre seu ex-marido, Flávio Maluf e Ricardo Castelo Branco a respeito da informatização para cobrança de ingressos de estacionamento, ou seja, colocação de chancelas eletrônicas para cobrança do uso do estacionamento. Ricardo e Flávio não queriam a informatização embora o grau de controle fosse maior. O então secretário Reynaldo de Barros, Flávio Maluf, Edevaldo Alves e o próprio Ricardo Castelo Branco fizeram pressão junto a seu ex-marido para que não se colocasse em execução o projeto idealizado pela declarante de utilização da Anhembi para acolhimento de meninos de rua. PROPINA A VEREADOR Logo no início da gestão, os vereadores governistas se rebelaram contra iniciativa de Celso Pitta no sentido de retirar-lhes a influência política sobre as administrações regionais, como vinha acontecendo na gestão anterior. Pitta cedeu e concedeu aos situacionistas a possibilidade de influenciarem nas regionais. No final de 1997, durante o andamento de uma CPI que visava a cassação do prefeito por fatos relacionados à emissão de precatórios, a declarante tomou conhecimento, através de informação de seu próprio ex-marido, que para que os vereadores situacionistas votassem no sentido de impedir a instauração da comissão, Pitta teve de pagar certa importância em espécie, cujo valor não sabe dizer, sendo que este dinheiro seria rateado entre todos os vereadores que votassem de acordo com o Executivo. Segundo lhe revelou seu marido, em reuniões ocorridas em sua residência, não estando a declarante presente, ali estiveram os vereadores Armando Mellão, Bruno Feder, Faria Lima e Nelo Rodolfo, à época presidente da Câmara, bem como o secretário do Governo, Edevaldo Alves da Silva, ocasião em que todos discutiram sobre a negociata, tendo Celso Pitta concordado com a proposta de pagamento em dinheiro aos vereadores para que votassem contra o início da comissão processante. Segundo Pitta, o levantamento do dinheiro era da responsabilidade de Edevaldo. Posteriormente, durante a CPI da Educação, novamente o secretário Edevaldo, em comum acordo com Pitta e os vereadores, pagou a estes importâncias em dinheiro, cujos valores desconhece. Os participantes desta outra reunião para fixação dos valores da propina eram basicamente Edevaldo, Nelo Rodolfo e os vereadores Bruno Feder e Faria Lima. Segundo soube a declarante, o dinheiro para pagar a propina era levado à casa de Edevaldo Alves da Silva, que entregava ao vereador Nelo Rodolfo, o qual realizava a distribuição aos demais vereadores. Nesta época, também integrava o grupo de vereadores que recebiam propina o vereador Salim Curiati Filho. A declarante testemunhou, no início de 1999, quando da instauração de um outro processo de impeachment contra o prefeito, bem como da criação da CPI da Máfia dos Fiscais, uma reunião em sua residência, onde estavam presentes o vereador Armando Mellão, o secretário Carlos Augusto Meinberg e o secretário de Comunicação Social, Antenor Braido, além de seu ex-marido. Foi o próprio Celso Pitta quem fez questão da presença da declarante. A reunião ocorreu alguns dias antes da votação final visando arquivar o processo de impeachment contra Pitta. Também estava presente nesta reunião o secretário da Saúde, Jorge Pagura (segundo Nicéa, ele não sabia da reunião e tinha ido à sua casa porque estava preocupado com a possibilidade de investigação de irregularidades no PAS). Iniciada a reunião, Meinberg já foi logo dizendo que o valor pedido pelos vereadores para votarem a favor de Pitta estava muito elevado e eles teriam que diminuir. Meinberg falava, pelo que a depoente pôde perceber, que o valor estaria em torno de R$ 1 milhão a ser dividido entre os vereadores que votassem a favor do Executivo, não de uma única vez, mas em prestações mensais até o final da gestão. Mellão disse que iria realizar outra reunião com os vereadores, para consultá-los sobre a aceitação de um valor menor. Meinberg prometeu a Mellão que, caso conseguisse a redução, o pagamento seria feito no dia seguinte, na casa de Jorge Yunes, tendo sido acordado que no dia seguinte Mellão compareceria ao gabinete de Meinberg para manifestar o valor fixado, que seria pago naquela mesma noite. Após a saída de Mellão, a declarante comentou com os demais para marcar a outra reunião na sua própria residência, onde seria colocada uma câmera de televisão oculta, para que fosse filmado o pagamento da propina, bem como fosse avisada a Polícia Federal. Meinberg disse que esta sugestão significaria o suicídio político do prefeito, tendo Pitta concordado com a posição. Meinberg, durante a reunião, disse que o dinheiro a ser pago aos vereadores seria obtido junto a empresas que prestavam serviços ao Município, mas não especificou quais nem que tipo de empresa. Após a saída de todos, tendo chegado em casa seus filhos, Victor e Roberta, a declarante resolveu realizar uma reunião com todos os familiares, tendo exposto aos filhos o que ocorreu naquela reunião. A declarante pediu aos filhos que a auxiliassem a demover o pai de fazer o pagamento aos vereadores. Houve uma reunião familiar, no quarto do casal, onde a declarante e seus filhos disseram a Pitta que não fizesse aquilo, que ele não deveria se deixar influenciar por Meinberg, que eles já estavam melhor perante a opinião pública e ele poderia realmente marcar sua administração com uma moralização, deixando, inclusive, de ser refém destas pessoas todas. Pitta disse que iria pensar, estava cansado, e amanhã conversaria melhor, mas, no dia seguinte, continuou a negociata. No dia seguinte, por volta das 22 horas, Pitta ligou para a casa do casal, tendo a declarante atendido, ocasião em que ele lhe disse que estava na residência de Yunes. Como na reunião do dia anterior houve a afirmação de que o dinheiro seria entregue na casa de Yunes, concluiu a declarante que a negociação fora completada. NOVA YORK A declarante ficou nos Estados Unidos, em Nova York, durante três meses, de agosto a outubro de 1999, no apartamento de sua filha, Roberta, quem estava juntamente com a prima, em cujo nome o apartamento estava locado. Os gastos para custear as despesas de permanência da declarante no exterior foram custeados, basicamente, por seu cunhado, sendo que Pitta apenas pagou os primeiros 15 dias e a passagem. Isto se deve a uma divergência familiar envolvendo a prima que mora no apartamento em Nova York de nome Raquel. A declarante não se recorda dos valores gastos no exterior, bem como da mesada que sua filha recebia quando lá permaneceu, mas que se compromete a levantá-los e encaminhá-los à Promotoria de Justiça. ACORDO MILIONáRIO A declarante confirma ter dito em entrevista televisiva, na data de ontem (domingo), ter sabido que seu ex-marido estaria milionário. Quem lhe disse esta informação foram dois advogados cuja identidade não quer revelar, a não ser que eles a autorizem mas caso eles não autorizem, a declarante tem duas testemunhas, Emanuela e Selma. Estes advogados propuseram à declarante a realização de um acordo formal da separação, mas haveria um acordo real, "por baixo do pano", em que os valores seriam bem mais elevados. JOÃO CARLOS MARTINS Em 7 de dezembro de 1999, seu filho, Victor, recebeu a importância de US$ 5 mil, através de uma agência do Banco Espírito Santo em Londres. Victor ficou bastante surpreendido quando verificou que essa quantia lhe foi transferida de agência do banco em Miami, por ordem de João Carlos Martins. Victor telefonou para a declarante para indagar por que este dinheiro havia lhe sido entregue através de João Carlos Martins, pessoa que não tinha qualquer relacionamento quer com a declarante, quer com seu filho, quer com o próprio Celso Pitta.A declarante instruiu seu filho que guardasse com cuidado o recibo e nada dissesse ao pai. COPA DO MUNDO Durante a Copa do Mundo de 1998, a declarante e seu marido viajaram a Paris para assistir ao evento. Segundo Pitta disse à declarante, quem fez o convite foram os organizadores do evento. No entanto, conforme veio a saber posteriormente, as despesas foram pagas por uma empresa francesa de lixo que prestava serviços à Prefeitura e Celso Pitta tem plena consciência deste fato. Quando o casal chegou a Paris, já no estádio, num camarote Pitta recebeu um telefonema de Antenor Braido dizendo-lhe para que deixasse imediatamente aquele camarote pois havia "vazado" a informação. O camarote onde estavam pertencia aos empresários proprietários da referida. Após o jogo, foram ao hotel, ocasião em que Naji Nahas telefonou a Pitta e disse-lhe que o casal teria de eliminar qualquer documento que demonstrasse que os pagamentos das despesas estavam sendo feitos pela empresa. A declarante e Pitta decidiram procurar um gerente superior para a solução do problema, que se prontificou a solucionar a questão, tendo lançado ao triturador a fatura de despesas feita em nome da empresa de lixo e aceito o pagamento feito através do cartão de crédito do próprio prefeito; que um dos argumentos usados pela declarante foi que aquilo, em seu país, seria considerado corrupção; que este pagamento foi feito no dia do jogo final do Brasil com a França, sendo que a declarante ainda permaneceu em Paris por mais alguns dias, e no mesmo hotel; CORRUPÇÃO NA SAÚDE Referente a superfaturamento em relação à compra de material hospitalar, envolvendo o secretário da Saúde, Jorge Pagura, informa a declarante que por volta de 23 de fevereiro do corrente ano recebeu uma correspondência anônima em sua residência, onde constava uma acusação no sentido de que as compras de remédios das cooperativas estavam centralizadas em quatro pessoas (...). Segundo a denúncia, pessoas ligadas à secretaria controlam os disquetes com os preços de remédios e mandam para empresas cobrirem os valores. A denúncia vem instruída com uma relação de medicamentos e outros produtos onde consta a relação de consumo médio trimestral dos medicamentos e o preço mínimo.Há cerca de dois anos, a declarante recebeu a visita do médico Vicente de La Magna, diretor do Hospital de Campo Limpo, vinculado ao PAS de Campo Limpo. Naquela ocasião, Vicente afirmou à declarante que tinha uma série de irregularidades para denunciar, relativas ao secretário Pagura. Marcou uma reunião com o prefeito. No dia, quando a declarante e Vicente chegaram ao gabinete, encontraram Pagura. Vicente saiu correndo, deixando a declarante sozinha. A declarante entrou na sala junto com Pagura e seu ex-marido, ocasião em que Pagura pediu a Pitta que demitisse o médico, fato que provocou a intervenção da declarante. Nada foi apurado em relação às irregularidades, como o fato de que Pagura solicitou dinheiro de todos os módulos do PAS com o propósito de custear a campanha de Paulo Maluf ao governo do Estado, tendo Vicente se recusado a assim proceder. ARMANDO MELLÃO Na época da campanha para a eleição do presidente da Câmara, a declarante recebeu a visita do vereador Paulo Frange em seu local de trabalho, ou seja, o Casa, o qual lhe disse que a declarante deveria avisar Pitta que Armando Mellão estava articulando para ser presidente da Câmara e havia prometido pagar aos vereadores que nele votassem determinada importância em dinheiro que a declarante não sabe precisar. A declarante pediu ao vereador que fizesse a comunicação diretamente ao prefeito. ACM Em 1998, talvez junho ou julho, a declarante estava com Pitta num evento no Masp, à noite, quando Pitta recebeu um telefonema em seu celular feito por Gilberto Miranda, solicitando a ida dele urgente à sua casa, pois o senador Antonio Carlos Magalhães estava muito bravo com o prefeito (após o evento, o casal foi à casa). Miranda, bastante nervoso, exigia que Pitta efetuasse o pagamento das dívidas atrasadas com a construtora OAS (cujo sócio é ex-genro de ACM). Miranda dizia que havia sido o maior defensor de Pitta na CPI dos Precatórios e Pitta não poderia agora deixar de fazer os pagamentos, já que havia feito essa promessa ao senador, para que este providenciasse o encerramento da CPI. Miranda ligou para o senador e lhe disse que estava com Pitta, mas que o senador disse que não queria conversa com Pitta e que este cumprisse a promessa.





