Ao lado de Malan, Carvalho ataca covardia e pede crescimento
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quarta-feira, 01 de setembro de 1999
Por Ribamar Oliveira 
Brasília, 02 (AE) - O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Clóvis Carvalho, fez hoje uma defesa apaixonada de uma rápida retomada do crescimento econômico. Com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, a seu lado, durante o seminário "Desenvolvimento com Estabilidade", promovido pelo PSDB, Carvalho disse que "apressar o passo na retomada do crescimento não trará o apocalipse". E acrescentou: "O excesso de cautela, a essas alturas, será o outro nome para covardia."
Em defesa de sua tese, o ministro fez um paralelo com as previsões dos economistas sobre os efeitos negativos da desvalorização do real, em janeiro. Lembrou que a inflação não voltou, "a recessão não se instalou no País e o desemprego não explodiu, como previram quase todos".
Carvalho disse que o País verificou, nos últimos meses, que sem crescimento terá instabilidade política. "E essa instabilidade política terminará por contaminar a própria estabilidade econômica". Por isso, ele acredita que o governo "precisa ousar mais, arriscar mais, arriscar até o limite da responsabilidade".
Para o ministro do Desenvolvimento, o ajuste econômico não pode ser entendido como "camisa de força" para iniciativas voltadas ao desenvolvimento. "Da mesma forma que responsabilidade não deve ser sinônimo de timidez nem de conformismo com resultados medíocres de crescimento econômico", afirmou. "Desenvolvimento tem que se traduzir em renda e emprego. E para a população, estabilidade tem que significar emprego, esperança e futuro. Ou não criará raízes. Nem será defendida pela sociedade como um bem do qual ela não pode abrir mão."
Pela primeira vez, uma autoridade do primeiro escalão admitiu abertamente que, dentro do governo, convivem "duas correntes". Carvalho disse que a "porção liberal" concentra-se na prioridade ao equilíbrio das contas públicas e ao controle estrito da moeda. A outra tendência, desenvolvimentista, considera que a preservação, a modernização e a ampliação das atividades produtivas e de serviços exigem também a indução do Estado.
"É bem verdade que, em alguns momentos, as duas faces se opõem", disse o ministro do Desenvolvimento. "Geram disputas internas e tensões", revelou para uma atenta platéia, constituída por vereadores, deputados estaduais e federais, além de alguns senadores e militantes do PSDB. O pequeno auditório "Minas Gerais" do Hotel Kubitschek Plaza, de cinquenta cadeiras, contudo, não estava inteiramente lotado. "Mas bem administradas - e elas têm sido - essas disputas e tensões são saudáveis e criativas", disse. "Quem, afinal, gosta de pensamento único?", questionou. "Este governo certamente não."
O ministro explicou que o governo tem buscado, "às vezes com sucesso e às vezes nem tanto", um equilíbrio entre esses dois lados - "em movimentos pendulares, conforme as necessidades e as demandas do momento". Para ele, "não é necessário, nem recomendável, que o presidente seja obrigado a arbitrar que um lado venceu e o outro perdeu".
Essa "estratégia de duas faces" resulta, de acordo com Carvalho, da adaptação do projeto liberal, herdado do período Collor pelo presidente Fernando Henrique, "às pressões e às demandas da sociedade organização, da própria base política do governo e da proposta social-democrata". São pressões e demanda
na avaliação do ministro, que exigem uma presença mais ativa, mas agressiva do Estado diante dos desafios impostos pela competição global.
Carvalho disse que o "desenvolvimentismo" continua industrializante, mas exclui a participação empresarial do Estado no sistema produtivo. "Seus partidários não são mais nacional-desenvolvimentistas".
No discurso escrito, que distribuiu depois, não consta a referência à social-democracia. Também quando se referiu ao "excesso de cautela", Carvalho falou que isso "poderá ser" outro nome para covardia. No texto escrito, no lugar de "poderá ser" está a palavra "será".
O ministro da Fazenda, Pedro Malan, já havia falado de improviso, antes de Carvalho. Repetiu tudo aquilo que tem dito nos últimos dias, em seus encontros com políticos. Chamou de "falso dilema" a pretensa oposição entre monetaristas e desenvolvimentistas e reafirmou que não fará uma bolha de crescimento. "Não somos mercadores de ilusões." Malan disse que um cenário de crescimento de 4% ao ano está ao alcance do País. O discurso do ministro, que falou depois de Malan, reacende uma briga antiga dentro do governo, opondo setores que defendem uma guinada na condução da economia - cujos principais expoentes são os ministros José Serra, da Saúde, e o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, por exemplo - àqueles que não abrem mão da manutenção da estabilidade econômica calcada no ajuste das contas públicas - grupo liderado por Malan.
Ao deixar o seminário, o ministro da Fazenda preferiu não comentar o discurso de Clóvis Carvalho. O próprio ministro do Desenvolvimento procurou retirar de suas palavras qualquer crítica direta ao colega de Ministério. "Eu e Malan estamos absolutamente sintonizados", disse. Negou também que tenha se referido ao ministro da Fazenda quando falou em covardia. "De jeito nenhum", afirmou. "Retratei um estado de espírito do governo, um desafio imposto pelo presidente Fernando Henrique de que é preciso ousar."


