Antonio Houaiss morre no Rio, aos 83
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domingo, 07 de março de 1999
Antonio Gonçalves Filho, Agência Estado 
Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Mensagem Dono da cadeira 17 da ABL, Houaiss deixou claro em seus livros que a cultura era troca, não acúmuloHouaiss morreu dominando mais vocábulos do que Machado de AssisMorreu ontem, às 7h55, de falência múltipla de órgãos, em consequência de estado séptico, o ex-ministro da Cultura e acadêmico Antonio Houaiss. Ele estava internado desde 28 de dezembro no Hospital Adventista Silvestre, em Santa Teresa, no Rio, e há 32 dias era cuidado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O corpo de Houaiss será velado na Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual era membro. O enterro está programado para hoje, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na zona sul.
Houaiss tinha 83 anos. Quando tomou posse da cadeira número 17 da ABL, em 1971, o escritor, filólogo, tradutor, dicionarista e gastrônomo Houaiss disse, no discurso, que preferia cometer o pecado da carência ao do excesso. Coerente com os ideais, Houaiss morre, de igual modo, evitando o excesso. Deu muito mais aos brasileiros do que exigiu do Brasil.
Diplomata defensor dos direitos humanos, ex-ministro da Cultura, tradutor daquela que é considerada a obra-prima do século, o Ulysses de James Joyce, Houaiss só cometeu em vida um gesto excessivo, o de começar um dicionário que deixa inacabado por falta de dinheiro. Sempre ele.
Dos sete irmãos, Antônio era aquele que vivia cercado de livros por todos os lados. Franzino, com pouco mais de 1,60 metro, acumulou tanto conhecimento que morreu dominando mais vocábulos do que Machado de Assis (oito mil palavras contra seis mil do escritor). O maior sonho dele era dividir esse conhecimento com o povo brasileiro.
O dicionário comunitário e computadorizado de Houaiss, que teria verbetes armazenados com acesso liberado a todos os interessados, ainda é sonho, mas o trabalho como enciclopedista pode ser apreciado na Delta Larousse, na Mirador e na Enciclopédia Britânica.
Também graças a ele, a língua e literatura brasileiras podem ser melhor estudadas em livros como Sugestões para uma Política de Linguagem (1960), Seis Poetas e um Problema (1960), Elementos de Bibliologia (1967) ou Poesia e Estilo de Carlos Drummond de Andrade (1968), além de estudos sobre Gonçalves Dias, Silva Alvarenga, Lima Barreto e Machado de Assis para citar apenas alguns entre mais de 50 títulos que deixa como legado ao povo brasileiro.
Para esse povo, a mensagem fundamental de todos esses livros parece clara. Cultura, segundo Houaiss, não significava acúmulo, mas troca. A cultura não pretende mudar somente a visão do mundo, mas anseia mudar a realidade quando ela é repugnante, definia o ex-ministro da Cultura. O que fazer com um mundo de dez bilhões de almas (a maioria pobre e analfabeta) na próxima década? Era essa a grande pergunta de Houaiss, para qual procurou desesperadamente uma resposta. Não há prática sem teoria e teoria sem aspiração à prática, disse, numa entrevista há cinco anos, justificando a fidelidade ao socialismo numa época em que o mundo tomava outro rumo.
Como presidente do PSB, Houaiss não conseguiu manter o cargo de ministro da Cultura do governo Itamar Franco justamente porque assumiu o ministério não como político, mas intelectual. Em outras palavras, sofria de falta de articulação. Muitos achavam que, como intelectual, não tinha competência para gerir e, como socialista, não sabia como administrar, mas a verdade é que Houaiss saiu porque estava descontente com a ridícula cota de 0,03% do Orçamento-Geral da União para a cultura - e disso não fez segredo para ninguém, criticando duramente os arranjos de políticos fisiológicos.
Coincidência ou não, o fato é que Houaiss ficou doente quando deixou o ministério, em agosto de 1993. Dois meses antes, foi internado no Hospital Adventista Silvestre, no Rio, vítima de uma gastrite e úlcera duodenal. A primeira endoscopia revelou coágulo no estômago. No mês da saída dele, novo colapso. Em 25 de agosto, Houaiss sentiu-se mal devido a uma súbita queda de pressão e foi socorrido por enfermeiros militares no palanque do Quartel-General do Exército, no Rio, ao participar, ainda como ministro da Cultura, do Dia do Soldado.
A saúde dele agravou-se nos últimos anos. Em outubro, o acadêmico, na semana em que completou 83 anos, foi novamente internado, com pneumonia, no Hospital Adventista Silvestre, no Rio.
Houaiss, idealizador do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, nem sempre foi socorrido pelos militares. Diplomata entre 1945 e 1964, teve suspenso por dez anos os direitos políticos durante o regime de arbítrio, sendo perseguido pelos militares pelas idéias liberais.
Nascido no Rio, em 15 de outubro de 1915, quinto dos sete filhos de Habib Assad Houaiss e Malvina Farjalla Houaiss, casal de imigrantes libaneses maronitas, o acadêmico casou-se em 1942 com Ruth de Salles e deu aulas de Português, Latim e Literatura entre 1934 e 1945. Como diplomata, integrou a Comissão de Anistia de Presos Políticos de Ruanda, examinando os processos de 1.220 pessoas que foram anistiadas pela Assembléia-Geral das Nações Unidas. Em 1995, aos 80 anos, Houaiss assumiu a presidência da ABL, concorrendo com o escritor Lêdo Ivo, que abriu mão da disputa para manter a tradição da chapa única na instituição.


