Antônio Houaiss era amante da boa culinária
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sábado, 06 de março de 1999
Por Adriana Ferreira 
Rio, 07 (AE) - Antônio Houaiss não reservou a paixão apenas para as letras: era também um entusiasta da boa culinária. Amante da comida brasileira, prestigiava, sempre que possível, a cozinha local. Entre os diversos livros que publicou
dedicou três ao assunto: "Magia da Cozinha", "Receitas rápidas, 81 receitas de (até) 18 minutos" e "A cerveja e seus mistérios". Bom cozinheiro, gostava de reunir amigos em volta da mesa. Momentos em que as discussões sobre literatura e língua se confundiam com um bom prato de moqueca capixaba, uma das especialidades dele.
Consultor do restaurante Brasserie Europa e do Hotel Marina Porto Angra, o chef Edegar Queiroz lembra do amigo Houaiss como um gourmet que sempre apreciou receitas tipicamente brasileiras. Gosto que o fazia produzir iguarias tão boas quanto as que degustava. "Uma vez, provei uma moqueca capixaba e senti como se estivesse no litoral do Espírito Santo", comenta o chef, que várias vezes encontrou Houaiss comprando frutas, verduras e peixes frescos no mercado.
Queiroz lembra que o filólogo não dispensava a refeição completa. Quando visitava o chef, Houaiss pedia um prato criado por Queiroz batizado como "Boi Manso", um carpaccio de carne de sol. O interesse de Houaiss pela boa cozinha fez com que ele fosse escolhido o patrono do Centro Técnico Gastronômico, que ainda vai ser inaugurado.
Para Houaiss, cozinha era algo "sobretudo cultural". Ele não via nada demais no fato de um homem vestir avental e ficar diante de um fogão.
"Os homens que não se interessam por comer, ou que desprezam a prática da cozinha, são machistas pensando que são mais machos", observou.
Filho de pai libanês e mãe brasileira, Houaiss nasceu em 15 de outubro de 1915, em Copacabana, zona sul do Rio. "Nasci em uma família relativamente pobre e, para mim, era fundamental ver a razão de ser disso", comentava, para justificar o interesse por assuntos tão variados. Formado em Letras Clássicas pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, em 1942, lecionou Português, Latim e Literatura, no ensino secundário, de 1934 a 1946. Pediu exoneração quando optou pela carreira diplomática. Foi vice-cônsul do Consulado-Geral do Brasil em Genebra (1947 a 1949) , onde também serviu como secretário da delegação permanente do Brasil em Genebra junto à Organização das Nações Unidas (ONU). Integrou representações brasileiras em assembléias gerais das Nações Unidas e das Organizações Internacional do Trabalho (OIT) e Mundiais de Saúde (OMS) e de Refugiados. Ainda pelo serviço diplomático, esteve na República Dominicana, em Atenas, Nova York e em Ruanda-Burundi.
Acusado, junto com um grupo de diplomatas, de envolvimento com a esquerda, Houaiss foi colocado, nos anos 50, "em disponibilidade inativa". Em 1964, recebeu aposentadoria compulsória. Ainda assim, guardava boas lembranças da vida diplomática. "Foi um período satisfatório, mesmo com os problemas políticos que culminaram com meu afastamento da carreira e a prematura aposentadoria." Em 1990, o então presidente Fernando Collor de Mello assinou um decreto, reabilitando oficialmente Houaiss, que foi promovido a embaixador na aposentadoria.
Afastado do trabalho diplomático, exerceu a função de redator do jornal "Correio da Manhã". Nesta mesma época, foi convidado para traduzir "Ulisses", de James Joyce, trabalho que exigiu um ano de dedicação.
Como filólogo, Houaiss atuou em diversas frentes. Foi um estudioso meticuloso e organizador de importantes publicações. "A nova ortografia da Língua Portuguesa", "A crise da nossa Língua" e "O que é a Língua?" são alguns títulos de sua autoria. Constam do currículo dele trabalhos à frente de obras de referência, como a edição brasileira da enciclopédia Delta Larousse (de 1965 a 1970), a enciclopédia Mirador (1975) e o dicionário Websters de inglês-português (1982), em colaboração com Ismael Cardim.
Secretário-geral do Encontro para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, bandeira que defendeu até o fim da vida, Houaiss fez a última incursão pela política em 1993
como ministro da Cultura do governo Itamar Franco, cargo no qual permaneceu por apenas um ano.
Membro da Associação Brasileira de Letras (ABL) desde 1971, o escritor ocupava a cadeira 17, cujo patrono é Hipólito da Costa. O lugar ainda pertenceu a Roquette Pinto, Osório Duque Estrada e álvaro Lins. Em 1996, o filólogo foi eleito presidente da Academia. Houaiss casou-se, em 1942, com Ruth Marques de Sales, que morreu em 1988, e não teve filhos.


