Agência Estado
Do Rio
Integrantes da cúpula da Polícia Civil distribuíram rosas brancas a militantes do movimento Tortura Nunca Mais, ontem, Dia Internacional dos Direitos Humanos. O ato, porém, estava longe de significar uma confraternização. Os militantes estavam reunidos em frente ao antigo prédio da Polícia Civil, onde funcionou o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no centro do Rio, para protestar contra o projeto de transformar as instalações em um Museu da Polícia.
‘‘Queremos que esse lugar seja um centro para estudos da história recente do País’’, afirmou a diretora do Tortura Nunca Mais, Maria Dolores Perez Conzalez. ‘‘O arquivo do Estado poderia vir para cá, já que está precariamente instalado.’’
A polêmica teve início no mês passado, quando a Polícia Civil tomou a iniciativa de restaurar o prédio onde presos políticos foram torturados tanto na década de 30, nos tempos de Getúlio Vargas, quanto na década de 70, do regime militar. Ontem, o que mais causou indignação aos militantes foram as faixas amarelas penduradas ao redor do prédio com os dizeres ‘‘Em defesa dos direitos humanos. Este prédio é nosso’’. Quem assinava as faixas era a Polícia Civil. ‘‘Isso é uma provocação’’, afirmou a presidente do Tortura Nunca Mais, Cecília Coimbra. ‘‘Fiquei presa aqui e me indignou ver a polícia usando nosso slogan’’.
Cerca de 30 militantes participavam da manifestação quando aproximadamente 20 policiais chegaram com rosas brancas nas mãos. ‘‘Não sou contra termos um prédio de arquivos sobre a ditadura’’, afirmou o chefe de Polícia Civil, delegado Carlos Alberto d’Oliveira. ‘‘Erros como a tortura não podem se repetir.’’ Segundo o delegado, a polícia não se opõe à criação de um centro de estudos de história ou mesmo à instalação do arquivo do Estado. Apenas não abre mão de que o local, que ainda é utilizado pela polícia, seja administrado pela instituição.
Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio, o deputado Chico Alencar (PT) participou da manifestação e propôs, em discurso, que o local poderia vir a ser administrado por um conselho. ‘‘O local é público e é possível se negociar para se chegar a um bom termo’’, afirmou o deputado. ‘‘O fato é que nenhum campo de concentração é administrado pelo Exército ou por partidos nazistas.’’
Durante a distribuição das rosas, os policiais não foram hostilizados pelos militantes, mas nem todos aceitaram receber a flor. ‘‘Quem não quer, tudo bem, não estamos aqui para provocar ninguém’’, disse a delegada Martha Rocha. A presidente do Tortura Nunca Mais afirmou que, se forem chamados para conversar com a Polícia Civil sobre o uso do prédio, é possível que o grupo aceite participar das discussões. ‘‘Tudo vai depender do acordo que queiram fazer’’, disse Cecília. ‘‘Eles fizeram faixas que confundem a opinião pública e isso é um claro método utilizado pela ditadura’’, afirmou. ‘‘Dessa forma, fica difícil.’’

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