São Paulo, 01 (AE) - A Antarctica e a Brahma acusaram hoje a Secretaria de Direito Econômico (SDE), subordinada ao Ministério da Justiça, de incentivar a entrada de um grupo estrangeiro no mercado de cerveja. A SDE havia recomendado, em parecer divulgado segunda-feira, que a Companhia de Bebidas das Américas (AmBev) venda todos os ativos (fábricas e marcas de bebidas) de um dos negócios da companhia - Brahma, Antarctica ou Skol - para que não haja monopólio no mercado. O parecer da secretaria servirá de base para o julgamento da fusão das empresas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade)
dentro de 60 dias.
Hoje, um dia depois do parecer, o presidente da cervejaria belga Interblue NV, Paul De Keersmaeker, comentou em Davos, na Suíça, que está "muito atento" ao mercado brasileiro. A Interblue é a maior cervejaria belga, a segunda na Europa e a quarta no mundo. Entre suas marcas estão a Stellla Artois e a Labbat Blue. No Brasil, a Kaiser também já manifestou interesse em comprar um dos negócios.
Em nota à Imprensa, a Brahma e a Antarctica afirmam que não existe empresa nacional com capital suficiente para adquirir e manter um negócio desse porte. "Para a Ambev, a venda de um dos negócios de cerveja é uma atitude desnecessária e sem sustentação técnica para a manutenção da livre concorrência de mercado", diz a nota. As empresas argumentam ainda que a retirada de uma das três marcas da Ambev impediria a empresa de conquistar os ganhos de sinergia que permitiriam competir no mercado internacional, como quinta maior companhia de bebidas do mundo.
A Associação da Brahma com a Antarctica, diz a nota, provocaria redução de custos anuais da ordem de R$ 500 milhões, cifra cerca de 40% superior ao lucro somado das duas companhias em 1998. "Sem parte desses recursos, as empresas não poderão financiar seu processo de expansão no mercado externo e fugir do elevado custo do dinheiro no mercado local." A nota lembra ainda que empresas de grande porte conseguem no Brasil financiamentos a juros mínimos de 15% ao ano, e no exterior as empresas são financiadas ao custo de 6% ao ano.
"Esse fato é, reconhecidamente, o maior entrave à internacionalização das empresas brasileiras." Os dois co-presidentes do Conselho de Administração da AmBev, Marcel Telles e Victório De Marchi, dizem no comunicado que acreditam num julgamento favorável do Cade, que teria "uma visão moderna da dinâmica da economia globalizada." A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) informou que reabre amanhã os negócios com ações de emissão das companhias AmBev, Antarctica Nordeste, Brahma e Polar.
Outro argumento da Antactica e da Brahma contra o parecer da SDE é o de que a eliminação de uma das marcas de cerveja da nova empresa tornaria a AmBev menor do que a Brahma, antes da fusão. A Brahma, que detém a marca Skol, domina hoje 48 8% do mercado, segundo o Sindicato dos Fabricantes de Cervejas (Sindicerv). Se a AmBev ficasse sem a Brahma, ficaria com 50,3% do mercado, ainda segundo dados do sindicato. Se perdesse a Antarctica, ficaria com 48,8%.
Caso a fusão acabe sendo autorizada pelo Cade sem restrições, a AmBev dominará 72,1% do quinto mercado consumidor de cerveja do mundo - o consumo per capita anual brasileiro é de 50 litros da bebida, atrás apenas do consumo da áfrica do Sul (61 litros), Venezuela (76 litros), Estados Unidos (86 litros) e Austrália (102). O parque industrial no Brasil produz hoje 8 bilhões de litros de cerveja por ano - é o quarto do mundo, de acordo com o Sindicerv.

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