Washington (AE-NEWSWEEK) - Um intrigante paradoxo dos anos 90 é que não são considerados a década da ganância. Somente os anos 80 adquiriram tal estigma, embora o avanço da riqueza individual, a explosão de fortunas pessoais e a obsessão com dinheiro nesta década rivalizem ou excedam o que aconteceu na década passada.
Alguém duvida que os americanos estejam mais hipnotizados no mercado de ações hoje do que há uma década - e por que não? Em 1980, acionistas detinham cerca de US$ 1,1 trilhão em ações, diretamente ou por meio de fundos mútuos, pensões e contas fiduciárias, diz o Federal Reserve. Em 1989, este número quase triplicou, chegando a US$ 2,7 trilhões. Mas, em 1998, os valores das ações quadruplicaram novamente, chegando a quase US$ 11 trilhões.
A história é semelhante no caso de grandes fortunas pessoais. Nos anos 80, o número de milionários - pessoas cujo ativos excedia o passivo em pelo menos US$ 1 milhão - aumentou modestamente, de cerca de 2,8 milhões para 3,2 milhões, segundo estimativas do economista Edward N.Wolff, da Universidade de Nova York. Em 1998, o número subiu cerca de um quarto, chegando a 4 milhões. A revista Forbes prevê que sua próxima lista dos 400 americanos mais ricos incluirá 250 bilionários, 60 a mais do que no ano passado. Pela estimativa de Wolff, a riqueza tornou-se dramaticamente mais desigual nos anos 80 e um pouco mais ainda nos anos 90.Pelos números, os anos 90 sobrepujaram os 80 como a década do dinheiro.
Mas as duas décadas são retratadas diferentemente. Nos anos 90, alguns dos super-ricos - Bill Gates e Warren Buffett - tornaram-se heróis populares. Isso não aconteceu na década de 80
quando Michael Milken e outros tipos de Wall Street foram retratados como símbolos da ambição. O egoísmo parecia contaminar o boom total. A economia de efeito cascata reinou; os programas sociais para os pobres foram reduzidos; irrompeu uma crise na poupança e nos empréstimos; multiplicam-se as aquisições hostis. Havia excessos em abundância.Ou pelo menos foi o que nos contaram. Nos anos 90, ouvimos uma história diferente.
Há menos crescimento guiado pela ambição e economia de efeito cascata. A prosperidade reflete a nova economia. Computadores, a Internet e os empreendimentos estão impulsionando os Estados Unidos. Tudo parece menos maculado e mais alto astral. O que explica o contraste?
Bem, talvez seja genuíno: a economia dos anos 90 é moralmente superior, com menos excessos. Seja cético.
Considere o boom IPO. Estes são as ofertas públicas iniciais agora extensivamente usadas pelas empresas de Internet. Elas vendem ações aos investidores públicos a preços que parecem violentamente inflacionados, porque as empresas normalmente não têm lucro ou perspectiva de lucro. Investidores originais podem vender; investidores públicos especulam insensatamente. Há questões éticas reais aqui. É moral vender títulos supervalorizados, mesmo se as pessoas os comprarem? Mas independentemente da moralidade, o boom IPO exala excesso. E se o mercado de ações mais amplo é reflexo de uma bolha especulativa (como muitos pensam), seu colapso poderá eclipsar qualquer acontecimento dos anos 80.
Talvez os americanos se tenham tornado mais abertos às grandes fortunas? Isto também é duvidoso. Os americanos provavelmente não são hoje nem mais nem menos hostis do que há uma década. Há muito tempo tem havido uma tolerância relutante às grandes desigualdades de riquezas, porque a maioria dos americanos também gostaria de se tornar rica.
Pesquisas periodicamente perguntam se o governo deveria limitar o quanto as pessoas podem ganhar. Por margens grandes, os americanos dizem não: 79% em 1980, e 74% em 1994.
O que explica principalmente por que as duas décadas são tratadas tão diferentemente é o aspecto intelectual e político. A classe das rápidas anotações e tagarelice - repórteres, editores, comentaristas, acadêmicos e outros árbitros do gosto público - desprezou, em sua maioria, os anos 80 e abraçou os anos 90. Seu desdém entusiasmo ilustram as percepções populares.
Suas tendências podem refletir parcialmente a experiência pessoal. A imprensa e a academia são instituições de classe média e média-alta, cujos membros sem dúvida lucraram amplamente com o boom do mercado de ações. Tendo descoberto sua própria ganância, talvez a condenem menos nos outros. Há ainda o fator da alta tecnologia. A riqueza proveniente dos computadores parece mais respeitável - menos suja e mais progresista - do que o mercado imobiliário ou de petróleo. (Claro, a distinção é dúbia, considerando que você não pode morar em um computador nem dirigir um para o trabalho).
A fonte principal das tendências, contudo, é política. De longe, repórteres e editores são liberais e democratas - uma realidade revelada por várias pesquisas. O mesmo acontecendo com a maior parte dos acadêmicos. A noção de que o país tornou-se ambicioso nos anos 80 encaixa-se em sua visão de mundo. Em 1980 e 1984, os americanos elegeram Ronald Reagan. Como um republicano, ele era (por definição) indiferente aos pobres e devedor dos negócios. O fato de os americanos o consagrarem significou que eles se tornaram mais egoístas. Isto ajudou a explicar qualquer coisa que parecesse indesejável sobre a economia dos anos 80 - de supostos programas sociais contra a fome à crise S&L.
Por uma lógica similar, a eleição de Clinton deixou implícito que o país estava cansado dos excessos dos anos 80. As pessoas estavam tornando-se menos egoístas. Todas estas correlações, claro, são mais imaginárias do que reais. Para os iniciantes, eles exageraram na mudança política. Nos anos 80, os democratas nunca perderam na Câmara (os republicanos controlaram o Senado por seis anos); os programas para os pobres não foram atacados violentamente em parte porque o Congresso refreou Reagan. Nos anos 90, os republicanos reconquistaram o Congresso. A reforma da previdência de 1996 - pela qual tanto Clinton quanto os Republicanos chama para si o crédito - igualou-se a qualquer dos cortes feitos por Reagan nos programas sociais para os pobres.
O grande pecado é explicar eventos econômicos com slogans políticos.
Pense nisso. A maior parte do crescimento econômico ocorre em cascata porque os 40% americanos mais ricos representam cerca de 70% da renda e poder aquisitivo. Embora a crise S&L tenha irrompido nos anos 80, teve origem na década de 70, quando a alta inflação levou à falência várias associações de poupança. (Aumentar as taxas de juros sobre depósitos de curto prazo exauriu os rendimentos proveniente de hipotecas de longo prazo com juros mais baixos). As aquisições hostis não foram muito bonitas, mas muitas vezes serviram para desalojar maus administradores e tornar as empresas mais eficientes. E o boom da informática antecipou os anos 90.
Ambição é uma palavra agressiva. Foi usada em demasia nos anos 80 e perdeu o crédito. Mas a natureza humana é menos volúvel que o aspecto político. Os americanos sempre foram ambiciosos e empreendedores. Estas características energizam a economia, mas podem descambar para a ganância. Isso foi verdade na década de 80 - e ainda é.

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