Rio, 06 (AE) - O primeiro sintoma é a falta de apetite. O peso começa a cair e a criança perde a vontade de viver, como se estivesse ausente do mundo real. Se não for tratada logo, pode morrer. O quadro descrito é típico de anorexia grave precoce, patologia que vem sendo estudada há cinco anos pelo psiquiatra suíço François Ansermet, que participou hoje de manhã do 15ª Congresso Brasileiro de Neurologia e Psiquiatria Infantil
no Rio.
Diretor do Serviço Universitário de Psiquiatria da Criança e do Adolescente do Hospital da Faculdade de Medicina de Lausanne, na Suíça, Ansermet veio ao Brasil para explicar como é o tratamento dessa doença grave e rara, que até hoje é desconsiderada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A entidade só classifica os casos de anorexia em crianças acima de 10 anos.
"Na verdade, podemos ter um quadro anoréxico em pacientes já na primeira infância (até 5 anos) e mesmo em bebês de até duas semanas de vida", diz o médico. Segundo Ansermet, a doença é encontrada na proporção de uma para cada 20 mil crianças. "Na população geral da Suíça francesa, 40% dos pais se queixam de problemas alimentares em seus filhos, mas os casos de anorexia são bastantes raros", afirma. A doença é de difícil identificação médica porque sua origem não está na criança, mas no meio que a circunda, especificamente na relação emotiva dela com seus pais.
"Não se trata de um problema genético, mas funcional, de base emocional, porque o paciente não apresenta nenhuma alteração física que o faça recusar a alimentação", explica o médico, que descobriu a existência da anorexia precoce depois de desenvolver um trabalho de psiquiatra perinatal, durante 11 anos
em parceria com pediatras e obstetras do Hospital da Criança de Lausanne. Ansermet conta que existe duas formas conhecidas de anorexia precoce: a passiva e a ativa.
Na primeira, mais grave, a criança não tem nenhum apetite, perde a ligação com o mundo exterior, como se lhe faltasse a força natural para viver. "É uma situação que poderia ser comparada a de um autismo precoce", diz. "Sem um tratamento específico, psiquiátrico, ela morre". Na anorexia ativa, o prognóstico é melhor porque a criança não apresenta o comportamento autista, embora se recuse a comer. "Na dimensão da recusa há uma afirmação do sujeito; a criança está dizendo que não quer, está dando uma resposta ao mundo exterior", explica Ansermet.
Segundo o psiquiatra suíço, a cura da anorexia precoce começa, basicamente, com um tratamento psiquiátrico dos pais e com sessões de reintegração social da criança doente com outras da mesma idade. "É preciso entender que a anorexia é expressão física de uma raiva inconsciente da criança em relação ao modo que é tratada pelos seus pais", afirma. Como exemplo, François Ansermet cita o caso da ansiedade de uma mãe ex-anoréxica que obriga seu filho a se alimentar. Essa ansiedade da mãe não permite, em última análise, que a criança se construa como sujeito a partir do próprio desejo de se alimentar, diz.
"Um trabalho com a família pode reorganizar a dinâmica dessa criança", afirma. O médico explica que o objetivo da psiquiatria perinatal é justamente permitir que os desejos da criança sejam percebidos pelos pais, obrigando a abertura de um canal de comunicação entre os dois. "O trabalho não é de conduzir, mas de criar um espaço que permita que a criança possa ir onde ela quer ir dentro da relação com os pais", conta.

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