Nova York, 01 (AE-NEWSWEEK) - Os casamentos inter-raciais estão aumentando, as barreiras raciais estão desfazendo-se e os Estados Unidos entram no ano 2000 mais tolerantes do que nunca. Mas esse futuro de uma "maioria minoria" do qual sempre estamos ouvindo falar nunca há de chegar.
Os Estados Unidos encerraram o século 19 declarando - no processo Plessy versus Ferguson - que a segregação rígida era a ordem natural. Era numa época em que W.E.B. Du Bois havia perdido a esperança de que a América pudesse superar algum dia seu grosseiro "apartheid".
"O problema do século 20 é o problema da linha de cores - a relação das raças humanas mais escuras com as raças mais claras", declarou ele em 1903. E a frase ficou famosa. Os americanos não provaram que Du Bois estava equivocado.
Seja como for, o país entra começa o ano 2000 esforçando-se conscientemente para ser um lugar mais tolerante. O novo ano não verá o fim da raça - o alvorecer de uma era em que a cor da pele não tenha consequência alguma -, mas verá uma erosão maior dos muros raciais. E verá a América lutando para dar sentido à mudança nas classificações raciais.
Os americanos já estão mudando - de maneira substancial e superficial - na tentativa de se adaptarem ao novo ideal de maior igualdade. Pode ainda haver nazistas marchando por aí, mas inevitavelmente o número dos que os contradizem é maior do que o deles.
Esses excêntricos da "nação ariana" podem ainda matar, mas se forem apanhados serão presos, estigmatizados e desprezados. A pureza racial não é tão apreciada como o foi outrora. Pessoas que se chamam de brancas admitem orgulhosamente suas raízes latinas e ameríndias. Um pequeno número chega até a reconhecer raízes ancestrais negras. E os romances inter-raciais, antigamente proibidos e condenados, florescem agora abertamente.
Entre 1960 e 1992, o número de casamentos inter-raciais aumentou mais de sete vezes. As uniões entre brancos e negros ainda não são uma coisa normal, pois correspondem a apenas 20% dos casamentos inter-raciais, mas a linha da cor quase se dissolveu entre asiáticos e brancos. Nos EUA nascem mais crianças de casais mistos brancos-japoneses do que de casais onde ambos os cônjuges são de origem japonesa. Depois, há os hispânicos que, de acordo com projeções, se tornarão o segundo maior grupo étnico-racial da América (depois dos brancos) até 2010. Os latinos podem considerar-se brancos, negros, ameríndios
asiáticos ou ilhéus do Pacífico - ou nada disso.
Na América Latina não é raro ouvir uma pessoa que não se considera negra falar de um avô que é negro. A presença de um número cada vez maior de multirraciais ou mestiços - independentemente do que eles se considerem - está obrigando os americanos a abandonar a noção de que todos podem ser enfiados num mesmo saco racial. Reconhecendo essa realidade, o Census Bureau (órgão de recenseamento dos Estados Unidos) vai permitir que as pessoas sejam incluídas em mais de uma categoria racial no recenseamento do próximo ano.
Em 1997, quando Tiger Woods revelou que, quando era adolescente, considerava-se um "cablinásio" - uma mistura de caucasiano, negro, índio e asiático - sua afirmação provocou confusão e até hostilidade. Na realidade, bem poucos negros americanos são apenas negros. Se as pessoas com "sangue negro" podem agora ser brancas, ou pelo menos não-negras, o que acontece com o chamado conceito de "passing", o fato de uma pessoa fazer-se "passar por" branca quando na realidade não o é? Afinal, isso implica uma negação da autêntica ancestralidade própria para ser aceito como membro de outra raça. Mas o que acontece quando a definição da outra raça muda para poder acomodar origens raciais outrora proibidas? E o que acontece com a própria noção de racismo numa sociedade em que a raça perdeu muito de seu significado?
A ascensão da raça mista - ou da sociedade "café com leite" - levou algumas pessoas a prever o fim das distinções baseadas no caráter étnico, na aparência racial ou na ancestralidade. Isso parece improvável. Mesmo no Brasil, onde a miscigenação racial é aceita, e até celebrada, a distinção pela cor não desapareceu. A condição social, o status, os privilégios ainda estão ligados à pele mais clara. As distinções raciais, embora mutáveis e imprecisas, são feitas constantemente.
No emergente futuro mestiço dos EUA, algumas pessoas ainda serão mais brancas do que outras - e, se a experiência da América Latina puder servir de guia, elas terão uma vantagem.
Mas o que acontece quando os brancos se tornam uma minoria? Segundo as projeções do Census Bureau, até 2030 os brancos não-hispânicos poderão constituir menos da metade dos adolescentes de menos de 18 anos nos EUA.
Algumas décadas mais tarde, as minorias, tal como agora são definidas, estarão em maioria. Mas o senso comum diz que o tão previsto futuro da "maioria minoria" jamais chegará. Entre outras coisas, essas projeções prevêem o crescimento de grupos étnicos supondo que a miscigenação racial deverá ser insignificante, quando será claramente o contrário. E quem pode dizer que uma moça com um avô asiático e um latino e dois outros avós brancos se considerará asiática ou latina, em vez de branca? Ou que um rapaz com um avô negro e um argentino e dois outros avós ingleses se considerará uma "pessoa de cor"?
Para complicar ainda mais as coisas, não temos nenhuma idéia do que significará a "raça majoritária" daqui a um século. Se o passado servir de guia, grupos que agora não são incluídos na "maioria" o serão então. No início deste século, a entrada de europeus do Leste e do Sul foi restrita por causa de sua origem racial supostamente inferior.
Agora, os romenos são considerados tão brancos quanto os demais europeus. Em meados do século 21, muitos daqueles que o Census projeta serem asiáticos, hispânicos ou negros poderão ser considerados brancos - ou seja lá qual for o novo termo para designar a maioria. Em outras palavras, a hierarquia racial não será virada de baixo para cima porque "as minorias" repentinamente serão mais numerosas do que os brancos. As categorias raciais mudarão muito antes que chegue esse dia.
Mas se as mudanças demográficas não virão trazer o fim da raça
o que irá fazer isso? A resposta é que nada irá fazer isso em breve. O estabelecimento de uma América mais tolerante não significa que temos uma América sem suposições e consequências raciais.
Mesmo nos Estados Unidos de nossos dias a mortalidade infantil entre os negros é duas vezes maior do que entre os brancos. Os negros sofrem taxas maiores de câncer, têm uma expectativa menor de vida e na questão da saúde estão em situação pior que os brancos em quase todos os pontos, até mesmo no acesso a cirurgias de câncer que podem salvar vidas, segundo um estudo publicado em The New England Journal of Medicine no mês de outubro. A raça também é importante no que se refere às oportunidades educacionais.
Segundo um estudo publicado pelo Projeto de Direitos Civis da Universidade de Harvard, está aumentando a segregação de negros e latinos nas escolas públicas, tanto nas cidades quanto nos subúrbios. E as escolas frequentadas por um número crescente de negros e latinos carecem dos recursos das típicas escolas de estudantes brancos.
E o que significa isso para o futuro? Significa, antes de tudo
que o futuro não é uma marcha direta da ignorância para o paraíso. No que se refere à raça, a América tem o hábito de reivindicar vitórias que não obteve. Como pode ser comprovado pelas campanhas de limpeza étnica nos Bálcãs e em Ruanda e pelo conflito étnico-religioso no Sri Lanka e em outros incontáveis pontos do globo, a tensão entre grupos não é um problema peculiarmente americano. Parece simplesmente fazer parte da condição humana.
Mas seria errado dizer que o futuro não será muito diferente do passado e a sombria profecia de Du Bois para o século 20 definirá também o novo milênio. A linha da cor está esvaindo-se em torno de nós.
O futuro americano certamente não será circunscrito por uma longa linha, com brancos de um lado e as raças "mais escuras" do outro: haverá muitas linhas e muitos campos e poucos serão totalmente segregados. As disparidades continuarão. Mas, com a eliminação dos mais rudes lembretes do racismo, será muito mais fácil dizer a nós mesmos que finalmente vencemos.