São Paulo, 08 (AE) - A desvalorização do real, que ainda não foi repassada para o consumidor por causa do desaquecimento da economia, deve fazer com que o ano 2000 comece com uma inflação reprimida de 9,4%. Nem toda essa inflação potencial deverá chegar ao bolso da população no ano que vem, caso o ritmo de produção e vendas volte a crescer moderamente. "Mas esse indicador é suficientemente elevado para justificar algum cuidado com possíveis pressões inflacionárias no primeiro semestre do próximo ano", avalia o professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e sócio da Tendências Consultoria Econômica, José Márcio Camargo.
Ele afirma que o tempo necessário para que um aumento de demanda se reflita nos preços cobrados do consumidor gira em torno de seis meses. Logo, se a economia voltar a crescer neste semestre, o impacto se dará no início do próximo ano. Além disso
essa inflação reprimida supera de longe a meta de inflação prevista pelo governo para o ano que vem, de 6%, que poderá oscilar entre 4% e 8%. Para concluir que a inflação reprimida é de 9,4%, Camargo calculou primeiro qual teria sido o crescimento do Índice de Preços no Atacado (IPA) com a desvalorização do real, se o nível de atividade não tivesse recuado, e comparou esse resultado com IPA efetivo estimado para este ano, já considerando a restrição na demanda.
A diferença entre os dois indicadores foi de 5,5 pontos porcentuais. O restante (3,9 pontos porcentuais) para totalizar a inflação reprimida de 9,4% resulta dos reajustes provocados pela desvalorização que não puderam ser transferidos para os produtos que sofrem concorrência externa (comercializáveis). Esses produtos compõem o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) e têm seu consumo influenciado pelas restrições na demanda. Estoques - É consenso entre os economistas que a demanda fraca deverá segurar os repasses da alta de preços acumulada no atacado. Também o acúmulo de estoques deve frear o ímpeto de repasses de alta de custos para preços.
Análise feita pela economista do BCN Alliance, Ana Cristina Gonçalves da Costa, com base nas séries históricas dessazonalizadas da produção e das vendas da indústria como um todo mostra que os estoques estão acima da tendência histórica para esta época do ano. O crédito também, diz a economista, continua caro, o que segura as vendas. "Os aumentos de preços no atacado acabarão sendo diluídos para o consumidor porque a demanda continua fraca", diz o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Heron do Carmo. Ele destaca que, com a economia aberta, a concorrência externa deve também ajudar a brecar a intensidade dos repasses.

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