Annan recomenda ampla operação civil e militar para Timor
Nova York, 05 (AE-AP) - O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, recomendou hoje (05) que a organização estabeleça uma operação civil e militar de grande envergadura para administrar a ex-colônia portuguesa de Timor Leste e conduzi-la à independência num prazo de dois a três anos.
Num relatório enviado ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, Annan propôs o envio de cerca de 9 mil "capacetes-azuis" para o território, 200 observadores militares e 1.640 policiais. O contingente incluiria ainda grande número de civis para administrar os serviços públicos, o Legislativo e a Justiça. A parte militar da operação não deve ser iniciada antes de dezembro, segundo o subsecretário da ONU para Forças de Paz, Bernard Miyet.
Annan informou que Portugal e Indonésia concordaram em transferir a autoridade do território à Administração de Transição da ONU em Timor Leste (Untaet), tão logo seja criada pelo Conselho de Segurança. A Untaet protegerá os timorenses, preparará uma Constituição, organizará eleições e promoverá a recuperação econômica e social da região.
Atualmente, uma força internacional da ONU (Interfet) liderada pela Austrália, com aproximadamente 5 mil homens e o aval do Conselho de Segurança, está em Timor Leste para deter a onda de violência desencadeada pelas milícias pró-Indonésia e organizar o retorno de milhares de refugiados. Parte dessa força poderia integrar a futura força de "capacetes-azuis".
O território foi invadido pela Indonésia em 1975 e anexado em 1976 - ação não reconhecida pela ONU. O governo indonésio pretendia conceder maior autonomia a Timor Leste, mantendo a região sob sua soberania, mas essa proposta foi rejeitada por 78,5% dos eleitores em um plebiscito realizado em agosto.
Milícias apoiadas pelo Exército indonésio iniciaram, após a consulta popular, uma campanha de terror contra a população, provocando a fuga de milhares de pessoas para o interior e Timor Oeste - região ocidental da ilha, pertencente à Indonésia. Com a chegada da Interfet, no mês passado, milhares de milicianos deixaram a região e estão concentrados em Timor Oeste, com planos de invadir o território.
"Estamos prontos para fazer frente à Interfet nas próximas 48 horas", declarou hoje o comandante-chefe das milícias, João da Silva Tavares. Ele está com mil homens em Haekesak, território indonésio situado a 12 quilômetros de Balibao, sede de uma unidade da Interfet em Timor Leste.
Hoje, chegou a Díli o primeiro grupo de timorenses, de 150 pessoas, que havia buscado refúgio em Timor Oeste e voltou espontaneamente ao território. Milhares de pessoas que se esconderam nas montanhas e florestas também estão voltando para casa. A ONU espera iniciar na sexta-feira a repatriação dos refugiados na parte ocidental da ilha.
O bispo de Díli, dom Carlos Belo, que se encontra na cidade australiana de Darwin, anunciou hoje que pretende retornar amanhã à capital timorense.
As entidades de ajuda humanitária começaram hoje de madrugada a distribuição maciça de sacos de 50 quilos de arroz para cerca de 13 mil famílias em Díli.
Manifestações contra o poder dos militares irromperam em diversas cidades indonésias hoje, dia em que as Forças Armadas celebravam seu 54.º aniversário. Um estudante morreu esfaqueado por um desconhecido quando as forças de segurança dispersaram centenas de pessoas concentradas diante da sede da prefeitura de Palembang, na Ilha de Sumatra.





