Nações Unidas, 20 (AE-AP) - Com a entrada de uma força de paz multinacional em Timor Leste como pano de fundo, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pediu hoje (20) aos líderes mundiais reunidos em Nova York para estarem mais dispostos a intervir em regiões castigadas por lutas.
No discurso de abertura da anual Assembléia Geral da ONU - que terá duas semanas de debates promovidos por chefes de Estado, ministros e um príncipe-herdeiro - Annan falou da necessidade de se proteger e promover a "segurança humana" no século vindouro.
Annan tem deixado claro que atualmente o principal desafio das Nações Unidas é reforçar seu papel na proteção de civis, que estão cada vez mais sendo alvo de partes em luta.
E para fazer isso, disse Annan, as Nações Unidas e o Conselho de Segurança têm de estar prontos para agir, mesmo quando os interesses de nações individuais não estejam em jogo.
"Uma era global exige um engajamento global", afirmou Annan à assembleia. "Na verdade, num crescente número de desafios que enfrenta a humanidade, o interesse coletivo é o interesse nacional".
Ele destacou o contraste entre a incapacidade do conselho em encontrar uma estratégia comum em Kosovo com seu voto unânime e rápido na semana passada para aprovar uma força de paz para Timor Leste, considerando que isto era uma evidência do aparente crescente desejo de se intervir quando vidas inocentes estão em risco.
Tal decisiva ação deveria deter aqueles que podem estar pensando em lançar novas guerras, disse.
"Se Estados inclinados a um comportamento criminoso sabem que fronteiras não são a defesa absoluta; se eles sabem que o Conselho de Segurança irá agir para deter crimes contra a humanidade, então eles não irão embarcar em tal curso de ação na expectativa de que desfrutarão de impunidade soberana", afirmou.
A primeira onda das forças de paz lideradas pela Austrália entrou hoje em Dili, capital do Timor Leste, a fim de impor a ordem depois de turbulências criadas por milícias antiindependentistas, que acredita-se deixou centenas de mortos.
Com Kosovo, Congo e Timor Leste certamente na mente de muitos dos mais de 185 líderes escalados para discursar, o tema da intervenção humanitária deverá ser destaque nos debates das próximas duas semanas.
O chanceler brasileiro, Luiz Felipe Lampreia, tocou no tema ao pedir que a intervenção humanitária seja igualmente aplicada. Ele criticou a diferente resposta do Conselho de Segurança em relação ao Timor Leste com sua inação em Angola, onde a guerra foi retomada sem tréguas.
"Por que certas situações geram intensa mobilização e outras não?", perguntou. "Por que o sofrimento humano em algumas partes do globo alimenta indignação maior do que aquele que ocorre em outros lugares?"
O presidente sul-africano Thabo Mbeki, o primeiro-ministro francês, Lionel Jospin, e o primeiro-ministro cambojano, Hun Sen, estavam entre os que deveriam discursar hoje. O presidente Bill Clinton, dos EUA, decidiu abrir mão de seu usual discurso do primeiro dia porque hoje é o feriado judeu de Yom Kippur.
A segurança ao redor da sede a ONU foi significativamente amenizada em relação ao ano passado, quando os líderes se reuniram logo após o duplo atentado a bomba contra embaixadas americanas na áfrica. A principal avenida na frente das Nações Unidas, que foi fechada durante toda a sessão de 1998, deverá ter o tráfego suspenso apenas das 8 da manhã a 6 da tarde nos três primeiros dias dos debates.

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