Rio, 08 (AE) - Os angolanos que moram nas favelas do Complexo da Maré, zona norte do Rio, querem deixar a região. Humilhados pela suspeita da polícia de que "mercenários angolanos" teriam participação no grupo que matou seis moradores da Favela Nova Holanda, na quinta-feira passada, eles temem represálias dos traficantes e a polícia. "Não tenho a menor dúvida de que os traficantes vão nos expulsar daqui; já não podemos entrar na Nova Holanda, depois dessas notícias", afirmou o pintor Jesus Ribeiro, de 28 anos, morador da Vila do Pinheiro, vizinha à favela.
Policiais da 21.ª Delegacia Policial (Bonsucesso) divulgaram que os angolanos eram considerados suspeitos de participar da chacina, mas a informação não foi confirmada pelo comandante do 22.º Batalhão, coronel Rosemberg Rodrigues da Silva. "Estou nessa área há dois anos e nunca prendemos angolano nenhum", afirmou.
Cerca de 600 homens das Políciais Civil e Militar continuam ocupando as favelas do Complexo da Maré. Dois adolescentes brasileiros foram presos com trouxinhas de maconha. O comércio abriu hoje, mas o movimento nas escolas foi pequeno. No Ciep Elis Regina, apenas sete alunos compareceram às aulas.
O angolano Jesus Ribeiro chegou ao Brasil em 1991, com o irmão de 14 anos. Ele desertou do Exército angolano depois que uma bomba caiu sobre sua casa, matando os pais e sete irmãos. "Não volto para lá de jeito nenhum, mas não dá para viver mais aqui", afirmou. "Agora corremos risco com a polícia, que vai passar a exigir dinheiro, e com traficantes".
Ribeiro pinta paredes e sustenta o irmão. Eles chegaram a morar em bairros da zona sul, como Copacabana e Botafogo, mas não conseguiram pagar o aluguel. Na Vila do João, pagam R$ 80 de aluguel pelo quarto que dividem .
Os jovens angolanos vêm para o Brasil, fugindo do serviço militar obrigatório e da guerra civil, que assola o país há 25 anos. Muitos perderam familiares. "Viemos para cá cansados da guerra", afirmou o estudante Pedro Antônio Jaime José, de 24 anos, há três no Brasil.
"Dizem que andamos bem arrumados porque o tráfico paga nossa roupa, mas nos vestimos assim porque faz parte da nossa cultura", afirmou o angolano Bernardo Simão Canga, de 21 anos, há dois anos no Brasil, com visto permanente. "Se o tráfico pagasse aluguel não haveria mendigo brasileiro dormindo embaixo de viaduto".
Recastra - A Polícia Federal (PF) recadastrou 123 angolanos em dois dias de operação em busca de imigrantes ilegais. Sete não tinham documentos e foram enviados para a sede da PF, na zona portuária. Segundo a assessoria de imprensa, três deles estavam em situação irregular e têm oito dias para deixar o País, além de pagar multa de R$ 826,80 cada um. Os outros quatro seriam interrogados no fim da tarde de hoje.