Buenos Aires (AE-REUTERS) - É hora do chá e jogadores de criquete com roupas brancas no Clube de Campo Hurlingham conversam em sua mistura de obscenidades espanholas e inglês com acento sul- africano. Garçons com a pele cor de oliva, fascinados pelo mais inglês dos jogos, servem chá e ricas guloseimas na chique sede do clube nos pampas argentinos enquanto os jogadores - nascidos e criados na Argentina longe dos estranhos expatriados - falam sobre bolas com efeitos, mulheres e patos. O príncipe da Inglaterra pode se sentir perfeitamente em casa lá - se ninguém explicar as origens genitais das palavras argentinas que fazem parte da conversação.
Uma sobra peculiar de um vasto império, milhares de britânicos na Argentina se agarram à língua e aos costumes de seus avós e bisavós. Alguns se casam usando kilts, outros lêem Shakespeare ou comem pudim inglês durante o Natal no forte calor de Buenos Aires. Talvez nenhum outro país além do velho Império Britânico recebeu tantos imigrantes britânicos e foi tão marcado por sua presença. É possível almoçar um rosbife e um pudim Yorkshire no London Grill e andar pela loja de departamentos Harrolds, que já foi a jóia de Buenos Aires mas hoje é um gigante abandonado, no caminho para as grandes estações que os ingleses construíram para os trens que levam a subúrbios chamados Wilde ou Banfield.
Os ingleses foram para lá construir linhas de trens e administrar agências de embarques e estâncias de criação de bois e ovelhas. Há muito tempo eles foram perdoados por uma rápida tentativa militar de tomar Buenos Aires no início do século XIX. A pequena colônia de Welsh, de predomínio britânico, também se instalou nos campos da Patagônia. Mas isso é outra história.
Os trabalhadores das ferroviárias introduziram o futebol, que compete com a boa aparência entre as obsessões nacionais dos argentinos. O Alumni, um dos primeiros times de futebol argentinos, já teve uma equipe onde 10 dos 11 jogadores tinham o nome Brown. Com exceção de alguns anos após da Guerra das Malvinas, que a Argentina perdeu para a Grã-Bretanha em 1982, os argentinos não-britânicos também foram responsáveis pela inclusão de certa anglofilia. Durante certo tempo, nenhum escritório de negócios argentino seria completo sem um quadro de uma caçada à raposa. Alguns da geração mais velha de uma comunidade britânica acham que cerca de 100 mil deles ainda falam espanhol com sotaque.
Mas a distância e o casamento entre as duas nacionalidades estão fazendo seu trabalho e os anglo-argentinos estão aos poucos sendo absorvidos pela comunidade que fala espanhol nesta nação de 35 milhões. "Nossos filhos não são tão ingleses como nós", disse John Hardman, diretor da escola St. Andrews Scots, que com 161 anos não é apenas a mais prestigiada escola particular na Argentina, mas também a mais velha. Os alunos da St. Andrews falam inglês em apenas 50% de suas aulas uma vez que a lei exige que eles falem espanhol pelo menos metade do tempo. Com 13 anos eles devem ler Shakespeare, depois de absorver o complicado autor argentino Jorge Luis Borges em espanhol aos 12 anos.
Loiro de olhos azuis, aparentemente sem sangue latino apesar das raízes de sua família na Argentina serem dos anos 20, Hardman é um típico anglo-argentino. É como se os britânicos estivessem sendo interpretados por uma dedicada trupe de atores germânicos, vivendo na Argentina por anos lendo cópias de Biggles e Oliver Twist para fazerem sua personificação perfeita. Eles parecem normais, soam normais, se vestem de forma normal...mas algo está errado. Andrew Graham-Yooll, um conhecido escritor anglo-argentino, disse que os verdadeiros britânicos podem expor imediatamente a versão sul-americana contando uma piada e vendo se o suspeito ri.
"O senso de ironia britânico provavelmente irá trabalhar 50% do tempo com o anglo-argentino, mas apenas 50% do tempo", disse Graham-Yooll, um editor do jornal escrito em inglês Buenos Aires Herald. Ele teve muito tempo para perceber quão não-britânico ele realmente era quando foi forçado a deixar a Argentina depois de ameaças e atentados contra sua vida durante a ditadura militar de 1976-83. A paz relativa da terra de seus ancestrais escoceses foi uma boa descoberta então. "Significava dormir com os dois olhos fechados à noite. Não tinha que me preocupar sempre com o carro que estava diminuindo a velocidade na frente de minha casa", ele disse.
Mais do que qualquer outro grupo de imigrantes na Argentina, os britânicos mantêm seus velhos costumes. Eles não apenas tinham mais dinheiro do que a maioria dos imigrantes quando chegaram no século 19 e no começo deste século, como também chegaram em um tempo onde a arrogância imperial os levou a se distanciar dos costumes não-britânicos. Ele preferiram ficar à margem de uma turbulenta sociedade em um século onde a Argentina atirou nos ricos e então mergulhou nas ruínas ao ser atingida por quatro golpes militares. "A comunidade britânica sempre evitou a política como a catapora. Eles nascem inoculados contra a política", disse Graham- Yooll.
Hardman concorda, apontando que os alunos da St. Andrews se tornam proeminentes nos negócios, e não na vida pública. O levante populista que varreu os argentinos sob o comando do general Juan Peron no final dos anos 40 incluiu a nacionalização das ferrovias britânicas e o final do domínio inglês sob o grande comércio de carne. No entanto, a comunidade britânica emergiu abalada, mas não despedaçada, e determinada a continuar como antes. Mas suas ligações com a Grã-Bretanha foram sendo corroídas. Um corte mais violento veio em 1982 quando a ditadura militar tentou recapturar as Ilhas Malvinas. "A guerra das Malvinas teve efeitos estranhos, que demoraram para ser notados. Os anglo-argentinos tiveram que decidir a quem pertenciam", disse Graham-Yooll.
Cada vez mais, o lugar ao qual eles pertencem é a Argentina. A maioria dos alunos da St Andrews, assim como aqueles das outras 100 escolas britânicas da Argentina, não é mais descendente de britânicos. Mas os graduados ainda jogam rugby e lêem poetas britânicos metafísicos. Os ingleses como uma comunidade separada na Argentina estão deixando de existir. "Eles não são suficientes", disse Graham-Yooll, lamentado sua extinção. "Eles representam um senso de decência e honestidade que a Argentina não terá sem eles".

mockup