Angélica está na comédia ``Zoando na TV''
São Paulo, 14 (AE) - E eis aí a fadinha no cinema. A outra estréia nacional, esta destinada a um público de faixa etária um pouco maior que o de ``Uma Aventura do Zico', é ``Zoando na TV', de José Alvarenga Jr., com a apresentadora Angélica com protagonista. Angélica, como até as pedras sabem, é a suposta sucessora de Xuxa Meneghel. Enquanto não chega lá, vai ocupando espaços e agora aterrissa nas telas do cinema, produção da Globo Filmes, o braço cinematográfico da corporação onde ambas as loiras labutam.
A linha mestra do roteiro não é ruim. No filme, Angélica é Angel, gerente de uma loja de roupas, que namora o garanhão Ulisses (Márcio Garcia) e quer casar-se com ele. Está até juntado dinheiro para isso. O que ela não contava é que o futuro marido irá gastar as economias comprando uma televisão high tech, daquelas que gente fina tem em seus, digamos assim, home theaters. Os dois brigam e o rapaz ``entra' no aparelho, no que é seguido pela noiva. Os dois passam a viver na realidade virtual do mundo televisivo, no qual tudo é falso. Apenas um anel mágico poderá trazê-los de volta à boa e estável realidade, mas terão de batalhar muito para isso.
A boa sacada são os quadros alternados no mundo da telinha, onde um clique no controle remoto despacha os personagens de um programa para outro. Assim, as aventuras de Angel e Ulisses (mas também de outras figurinhas carimbadas do mundo global, como Danielle Winits, Bussunda, Miguel Falabella, Maria Padilha, Odilon Wagner, etc) viajam de programa a programa. Passam pela baixaria de auditório comandada por Bussunda, até a novela romântica em que Falabella interpreta o canastrão romântico Rodolfo Augusto e a pérfida Maria Lúcia é vivida por Maria Padilha. Vagam de documentários de viagens a canais de vendas, passando até por um simulacro de Plantão Médico.
Ironia - Há uma certa ironia em relação à TV que parece até saudável. O lado fake dos programas que servem de cenário para a saga amorosa de Angel e seu Ulisses é realçado. Como se o filme, produzido pela rede de televisão, comentasse criticamente a própria televisão. Um olhar mais atento nota porém que essa atitude de escorpião é ilusória: os programas impiedosamente gozados pelo filme não passariam jamais pelo crivo do ``padrão de qualidade'. A televisão falsa é a dos outros.
Esse é um detalhe. O outro é a pretensa discussão entre aparência e realidade colocada pela história. Há certo parentesco com a irrealidade de ``Truman Show' em algumas passagens. O mergulho dos personagens na TV vem de ``Ladrões de Sabonete', de Maurizio Nichetti. E o lamento de Rodolfo Augusto, de que é apenas um galã e não teria função no mundo real, lembra muito, demais até, ``A Rosa Púrpura do Cairo', de Woody Allen. Nada se cria, tudo se copia. Ou teria sido apenas citação?
Além disso, o filme, na verdade, é muito pouco crítico, ao contrário do que se pretende. Lembra muito mais aqueles programas auto-complacentes e auto-referentes como ``Vídeo Show' e, agora, ``Muvuca'. A emissora, por meio das mesmas caras, falando de si mesma, num diálogo fechado e autista. Agora nas telas do cinema. Tão auto-referente que não faltam, para os iniciados, as citações a passagens biográficas da protagonista, como a perda da virgindade e o namoro com Garcia. Claro, confessados anteriormente na telinha e agora relembrados na telona.
Com tanta citação, ``Zoando na TV' parece mesmo um pastiche narcisista pós-moderno. Que, para frustração de gente muito irritável, tem, lá e cá, seus momentos de graça e espontaneidade. Vamos ver como passa (se é que passa) pelo teste da bilheteria. (L.Z.O.)





