Androcur não matou Lima, diz hospital
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de julho de 1998
Israel Reinstein e Agência Folha 
O aposentado Teodoro de Lima, 77 anos, morreu vítima de pneumonia e não por ter ingerido Androcur falsificado, distribuído pelo Hospital de Clínicas (HC) de Curitiba até fevereiro deste ano. A informação é do urologista Luiz Carlos Rocha, chefe do departamento de Urologia do HC, que desde de fevereiro está verificando o quadro clínico dos 90 pacientes que receberam o lote falsificado 351. O médico assegura que Teodoro trocou em janeiro o Androcur por outro medicamento contra o câncer de próstata. Mas a família de Teodoro sustenta que ele usou o Androcur até os últimos dias de vida.
Segundo Luiz Carlos durante um ano de tratamento Teodoro vinha apresentando melhoras significativas a partir do momento que passou a tomar Androcur. Conforme o médico o prontuário do aposentado mostra um tumor avançado no início do tratamento. Há seis meses ele trocou esse remédio por outro por ter tido uma regressão do tumor na próstata, afirma, sem nominar o outro remédio. Não se pode culpar o remédio quando a causa da morte foi outra, complementa.
O médico do HC entregou a lista dos 90 pacientes à Polícia Federal, que investiga o caso, e diz que não vai divulgar os resultados à imprensa. São informações sigilosas, frisa.
A nora de Teodoro, Zoema Roenselfd, garante que o sogro tomava apenas o Androcur, acompanhado de analgésicos, para diminuir a dor. Ela garante que viu Teodoro ser medicado com o Androcur na enfermaria do HC. Ia pegar o remédio junto com ele no hospital, diz. Na segunda-feira, Zoema deu esta mesma versão na Delegacia de Homícidio, que investiga a morte de Teodoro. Para ela, a única prova conclusiva da causa da morte é o exame que o IML está fazendo das amostras do produto.
Segundo o delegado Stélio Machado, da Homicídios, diretores e médicos do HC serão chamados para prestar esclarecimento. O hospital descobriu, apenas em fevereiro, que vinha distribuindo produto falso aos pacientes. O lote de 20 mil comprimidos do Androcur foi comprado da distribuidora Abifarma, que teria adquirido essas cartelas da rede gaúcha de farmácias Casagrande e esta da distribuidora mineira União.
A Vigilância Sanitária de Santa Catarina está investigando em Joinville a morte do aposentado Júlio Gonçalves Corrêa Filho, 79 anos, que sofria de câncer de próstata, e, segundo a família, teria morrido usando o remédio Androcur falsificado do lote 351. A Schering do Brasil, fabricante do remédio, já havia anunciado, em março, que não havia produzido tal lote e que houve um derrame de remédios falsos.


