Brasília, 05 (AE) - A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) concluiu que o grampo na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), feito durante a privatização do Sistema Telecomunicações Brasileiras (Telebrás), não deve ter sido realizado na rede telefônica da empresa Telecomunicações do Rio de Janeiro (Telerj). A investigação foi feita nas seis principais centrais telefônicas da empresa, entre 4 e 11 de fevereiro, seis meses depois de realizadas as gravações, que culminaram na demissão do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros e do ex-presidente do BNDES André Lara Resende.
Com o resultado das investigações, iniciadas em novembro
a Anatel decidiu arquivar o processo. Mesmo assim, o conselheiro da agência José Leite Pereira Filho admitiu que não há como ter certeza absoluta de que os grampos não foram feitas na rede da operadora. "O que podemos garantir é que, no momento em que foi feita a investigação, não encontramos nada de irregular", afirmou Pereira Filho.
"Os testes, que são científicos, apontam que 99% da rede estava protegida em fevereiro." Com o resultado deste processo, segundo técnicos da Anatel, há a suspeita de que a origem dos grampos está limitada às centrais telefônicas dentro do próprio BNDES ou até mesmo a microfones embutidos dentro dos telefones dos gabinetes dos diretores do banco. As investigações sobre a autoria dos grampos estão sendo feitas pela PF.
Em outubro, Barros havia denunciado existência de uma quadrilha especializada em espionagem industrial que atuaria no Rio, usando as centrais telefônicas da Telerj. Esta quadrilha poderia estar agindo também em outras privatizações e grampeando ligações de órgãos do governo, como o Banco Central (BC) e a Petrobras, que também lidam com informações estratégicas.
As investigações da Anatel foram feitas de forma sigilosa, por meio de amostragem em 650 linhas das seis principais centrais telefônicas da Telerj. "Ninguém sabia nem o dia nem quais seriam as centrais fiscalizadas", informou Pereira Filho. Os testes, feitos pela empresa Helen Ellot do Brasil, consistiam em medições na rede externa da operadora. "Os resultados alcançados são confiáveis", afirma Pereira Filho.
As gravações revelavam o interesse do ex-ministro na vitória do consórcio formado pela Telecom Italia e Banco Opportunity na licitação da Tele Norte Leste, a Telemar. Numa das ligações, Barros negociou com o ex-diretor internacional do Banco do Brasil (BB) Ricardo Sérgio que o banco daria a garantia para o consórcio participar da licitação. O ex-ministro também chamava de "telegangue" o consórcio adversário do Opportunity, que acabou concorrendo sozinho pela Telemar.
O teor das conversas chegou a levantar dúvidas sobre a transparência da privatização, a maior realizada em toda história do País. Depois de uma longa sabatina no Senado, a presença de Barros e Resende no governo passou a ficar insustentável. Em meados de novembro, os dois pediram demissão.

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