Analistas vêem números incompatíveis em projeções do acordo
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terça-feira, 09 de março de 1999
Por Denise Neumann e Márcia de Chiara 
São Paulo, 09 (AE) - Uma queda de 20% nas importações brasileiras este ano - embutida nas projeções de superávit de US$ 11 bilhões na balança comercial - não é um resultado factível , segundo avaliação de economistas ouvidos pela AGÒNCIA ESTADO. Esta projeção consta no novo acordo negociado entre Brasil e Fundo Monetário Internacional (FMI), mas "não é compatível com uma queda de 4% do Produto Interno Bruto (PIB)", explica Marcelo Allain, diretor de Análise Econômica do Banco BMC.
Uma redução desta proporção no volume de importados "sugere uma recessão ainda mais profunda que as projeções de PIB indicam", acrescenta Octávio de Barros, economista-chefe do Banco Bilbao Vizcaya (BBV).
Para o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe), Heron do Carmo, será complicado atingir a meta de superávit comercial de US$ 11 bilhões. É que o ritmo de queda nas importações não deverá ser compensado, de imediato, com aumento das exportações. O economista acredita que deverá transcorrer um período mais longo até que as vendas externas reajam e provoquem um saldo maior.
Barros diz que as projeções mais otimistas que o Departamento Econômico do BBV formulou para balança comercial apontam aumento de 9% nas exportações e queda de 17% nas importações, resultando em saldo positivo de US$ 7,9 bilhões. O número de Allain, do BMC, aponta superávit de US$ 6 bilhões, com alta de 9% nas exportações e 13% nas importações.
O risco do número do governo para balança comercial não ser confirmado é o buraco que ele abre na conta corrente (que considera outras contas do País com o exterior, como serviços, juros, viagens e remessa de dividendos). A revisão do acordo com o FMI estabeleceu como possibilidade um déficit de US$ 16 bilhões na conta corrente, equivalente a 3,0% do PIB.
Nas contas do BMC, o saldo deve ser negativo em US$ 20 bilhões e para o BBV a projeção é US$ 20,5 bilhões de déficit em conta corrente. "O otimismo com a queda das importações pode tornar inviável a a obtenção do déficit esperado para conta corrente", pondera Allain. Na sua avaliação, a meta para superávit fiscal é "factível", mas precisa de cortes extras em despesas e projetos do governo, como o Brasil em Ação.
Inflação - Já quanto à meta de inflação de 16,8% estimada para 1999, Heron avalia que ela será mais fácil de ser cumprida do que a da balança comercial. "A meta de inflação está folgada", diz o economista, que considera esse porcentual como sendo a variação dos preços pagos pelo consumidor.
Ele mantém a sua previsão de que o IPC da Fipe irá fechar o ano com variação acumulada entre 10% e 12% e acha que as suas estimativas do custo de vida ficaram mais consistentes com a previsão do governo de encerrar 1999 com o dólar cotado a US$ 1,70.
Provavelmente, avalia Heron, o governo trabalha com expectativa de um índice de inflação maior porque leva em conta a possibilidade de algum acidente de percurso como, por exemplo, uma geada que possa vir a afetar a safra de inverno.
Comércio - "Pelo menos agora temos parâmetros na economia", diz o economista da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo, ponderando que o cenário não é favorável. A retração no PIB, estimada em 4% para este ano, deve influenciar negativamente o desempenho do consumo. Para este mês
o economista acredita que as lojas devem registrar queda de 10% nas vendas em relação a igual período de 1998.
Além disso, a sinalização de que os juros devem continuar altos a médio prazo, agravada pelo aumento dos compulsórios bancários e do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), vai inibir as vendas a prazo.
Câmbio - Para Barros, do BBV, as tabelas divulgadas hoje pelo Banco Central, informando taxas médias de câmbio e taxas para o fim de cada mês, além da variação esperadas para as reservas cambiais, tiveram o objetivo de introduzir algum grau de previsibilidade no câmbio flutuante. "A intenção é de dar um norte para o mercado, não se trata de meta ou de um número a ser perseguido pelo Banco Central", observa.
Outro sinal importante, diz, é indicar para os exportadores que o momento de fechar o câmbio é agora, porque a tendência da taxa é de declínio.


