Washington, 22 (AE) - Para os analistas de mercado, não existem motivos economicos, nem expectativas de uma mudança de rumo, que justifique o nervosismo em relação à Argentina. "O problema é o sentimento que os investidores tem em relação ao país, e este tem sido negativo", explicou Fernando Losada, do banco de investimentos ING Barings. "E essa incerteza deve durar até a posse do novo governo no final do ano", concluiu.
Hoje (22), a Standard & Poors, uma agência de classificação de riscos, aconselhou maior cautela aos investidores interessados na Argentina, ao dizer que o panorama do país, em vez de "estável" é hoje "negativo": teme que o novo presidente, eleito em outubro, não consiga realizar as reformas necessárias para melhorar sua situação.
A Moodys, outra agência de classificação de riscos, já tinha dito qualificado o panorama argentino de "negativo" em setembro de 1998 e manteve sua posição em janeiro passado. Numa análise anual da situação do país, divulgada há duas semanas, seus economistas falam na vulnerabilidade da economia do país, citando o impacto da desvalorização do real e do fortalecimento do dólar (que tornam seu setor exportador menos competitivo) e as eleições presidenciais.
Apesar de a Argentina ter superado tanto a crise mexicana, quanto a asiática, a russa e a brasileira, a Moodys teme uma mudança no "sentimento do investidor e credor". Segundo Losada
o mercado agora está na expectativa de um encontro de investidores em Nova York, programado pelo banco Goldman Sachs para o próximo dia 29, com os dois candidatos a Ministro da Economia da Argentina: Jorge Remes (do Partido Justicialista, no governo) e Jose Luiz Machinea (da oposição).
Os temores em relação à Argentina - cujo desempenho econômico vinha sendo elogiado e cuja reputação de país estável foi mantida, mesmo depois da crise no Brasil, seu principal parceiro comercial - começaram a surgir este mês. O estopim foi Eduardo Duhalde. Candidato do mesmo Partido Justicialista do presidente Carlos Menem, ele quis se diferenciar do atual governo - responsável pela tão elogiada estabilidade econômica, mas também criticado pelo crescente desemprego e corrupção. Por isso propos a renegociação da dívida externa.
Apesar de nenhum economista de Wall Street achar que a Argentina declarará uma moratória, desvalorizará o peso (que, por lei, está atado ao dólar), ou voltará atrás nas suas reformas econômicas, os investidores ficaram nervosos e as bolsas despencaram, afetando também o Brasil. "Não esperamos surpresas", disse Losada. "Sabemos que a Argentina está em recessão e precisará de tempo para se recuperar, mas o déficit do governo central ainda é pequeno, cerca de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB) e, se somarmos os déficits das províncias e dos municípios, fica em 2,7% do PIB".
Ernst Chip Brown, economista do banco de investimentos Morgan Stanley Dean Writter, pensa o mesmo. "Todos sabiam que a desvalorização do real, no Brasil, afetaria as exportações e a competitividade da Argentina", disse. "E todos sabem que será mais difícil hoje superar a recessão do que há um ano - mas daí a achar que o país entrará em crise existe uma enorme diferença", acrescentou.
Os analistas tampouco acham que o Brasil será afetado pelo nervosismo que gira em torno à Argentina. "Estamos falando de duas situações diferentes, ainda mais agora que o governo brasileiro mudou sua política cambial", disse Brown.
Segundo John Welch, economista para a América Latina do Paribas, existe cautela - tanto em relação à Argentina, quanto em relação ao Brasil. "Nunca fui dos mais pesssimistas, nem dos exageradamente otimistas", disse. Mas ressaltou a necessidade de o governo brasileiro continuar as reformas, se não quiser voltar a ter problemas sérios no ano 2001.

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