Rio, 31 (AE) - A alta na cotação do dólar registrada nos últimos dias não deverá provocar uma explosão inflacionária, um dos maiores temores da equipe econômica, segundo analistas, que prevêem uma redução nos índices de inflação para os próximos meses. A recessão, segundo eles, ainda limita um repasse mais significativo para os preços ao consumidor dos aumentos desencadeados pela desvalorização cambial.
"O mercado não tem como absorver alta de preços", explicou o economista-chefe do Bank Boston, José Antônio Pena. "Só haverá um repasse efetivo dos custos quando houver uma recuperação do nível de atividade", previu.
Ontem a Fundação Getúlio Vargas divulgou a taxa de agosto, que ficou em 1,56%, um nível ainda considerado alto, por causa dos preços no atacado, que sofrem mais diretamente os reflexos cambiais. A cotação do dólar ao redor de R$ 2, porém, não preocupa o economista-chefe do Lloyds Bank, Odair Abate, que espera uma queda nos índices de preços para os próximos meses. Ele avaliou que o medo de contaminação é muito pequeno, com as maiores pressões sendo registradas nos produtos industrializados. "Este é o item que mais sofreu com a desvalorização cambial este ano", explicou. O banco estima que os industrializados encerrem 1999 com alta de 23,5% ao ano, bem acima dos 14% previstos para o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) no mesmo período.
Os setores da indústria que ganharam mais poder de barganha para competir com os importados após a desvalorização cambial estão aproveitando para repassar os aumentos de custo. O executivo do Bank Boston ressaltou esse fator como um dos responsáveis pela forte alta dos preços industrializados desde junho.
Além do câmbio, os preços dos produtos industrializados refletiram nos últimos meses o aumento nos custos provocados pelo reajuste das tarifas públicas e dos combustíveis. "Esses itens não devem mais pressionar a taxa nos próximos meses", previu Abate. "Isso deve neutralizar parte da alta gerada pela desvalorização cambial." Um repasse para os consumidores na mesma intensidade dos preços industrializados é descartado pelos dois economistas e pela analista Rita Rodrigues da Tendência Consultoria. Eles ponderam que a perspectiva de uma recuperação mais acentuada no segundo semestre é um dos fatores que leva a indústria a reajustar seus preços. Já o varejo mantém uma postura conservadora, esperando sinais mais claros de retomada do crescimento. "Apesar do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) ter surpreendido, o País continua operando em um nível mais baixo do que no ano passado", afirmou.

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