''Porque eu sei que é amor, eu não peço nada em troca''. Na música do grupo Titãs pode até parecer que o sentimento é algo despretensioso, mas, sob a ótica da biologia, a paixão é uma descarga de hormônios, e o corpo pede, sim, algo em troca, a presença. Quem está apaixonado sabe - é só a pessoa amada se aproximar para o sorriso aflorar, o coração bater mais rápido e o desejo sexual ser despertado, e quando se está longe, vir a angústia. No próximo sábado, 12 de junho, quando casais de namorados apaixonados comemoram a data, vale também a reflexão: é amor ou paixão?
Refletir sobre a possibilidade da paixão 'dar certo' e se transformar em amor é um dos temas tratados pela médica Cibele Fabichak, fisiologista especializada em sexualidade humana, de São Paulo, no livro ''Sexo, Amor, Endorfinas & Bobagens'', lançado este mês pela editora Novo Século. Ela também revela que um dos segredos para um relacionamento duradouro - manter o interesse do outro sempre buscando experiências novas - acaba de ganhar explicação biológica: um hormônio chamado ocitocina é relacionado por pesquisadores à transformação da paixão em amor. ''A ocitocina está por trás do vínculo duradouro''.
Nos últimos anos, explica Cibele, as químicas da paixão e do amor têm sido melhor entendidas pelo avanço da tecnologia em exames de ressonância magnética e tomografia que permitem 'ver' o cérebro e as áreas relacionadas aos sentimentos. ''Isso permitiu diferenciar paixão de amor''.
São três os estágios da paixão. O primeiro se caracteriza pela busca de satisfação sexual, quando o principal hormônio responsável é a testosterona, tanto no homem, quanto na mulher. O segundo é a atração física, caracterizado por um estado de euforia e grande felicidade, quando não se consegue enxergar defeitos no outro. E, por fim, o terceiro estágio é o estabelecimento do vínculo duradouro e a transformação ou não da paixão em amor. Tudo isso tem explicação biológica.
O prazer é causado por hormônios e neurotransmissores lançados na corrente sanguínea. ''Principalmente a dopamina'', enfatiza. A substância é liberada em uma região do cérebro conhecida como sistema límbico, considerado a central das emoções, a mesma acionada quando se consome drogas. A dopamina liberada nessa região aciona o sistema de recompensa e uma extrema euforia. ''O outro é encarado como a grande fonte de prazer, que o cérebro identifica sempre que está perto. Por isso, quando há afastamento há insegurança, dúvida, conflito. A química cerebral é semelhante a um vício'', explica.
O tempo fisiológico da paixão é em torno de dois a três anos, suficiente para o casal se apaixonar, se conhecer, fazer sexo e o filhote nascer. ''A natureza mantém esse casal junto até que o bebê esteja desmamado e relativamente andando com as próprias pernas'', diz. Mas, se a natureza 'programou' o ser humano para 'monogamias sucessivas', ele mesmo subverteu a ordem com elementos culturais, sociais e religiosos. E, hoje, até a ciência se rende à possibilidade de um amor duradouro sustentado pela ocitocina, o 'hormônio do amor e da confiança'.

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