Amor e dedicação para domar feras
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de janeiro de 2010
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Ariel vive a fase de transição entre a infância e a idade adulta, e como muitos adolescentes, só tem tamanho. Dócil e brincalhão, impressiona pela beleza estonteante, mas também assusta quando resolve mostrar o poder de suas cordas vocais. Adriel, com o todo o frescor de seus 14 meses de idade, disputa as atenções com o companheiro. Baruck é pura energia, corre pela casa toda e se diverte atacando as pernas dos visitantes. Lula, o bebezinho da turma, vive mamando e apronta um berreiro quando sente-se ameaçado pelas brincadeiras espalhafatosas do irmão. Os quatro, representantes dos mais belos felinos criados pela natureza, são o feliz resultado do trabalho desenvolvido em um santuário existente há quatro anos em Maringá, e que em breve poderá se transformar em centro de triagem e zoológico. Todos estes filhotes nasceram no local.
Se tudo der certo, o leão Ariel, sua mãe Menina e mais os tigres Adriel, Baruck, Lula, Ágata, Téta, Tom e Shang poderão ser expostos à visitação. Uma atração e tanto para a população, acostumada a ver representantes destas espécies quase sempre em imagens do distante continente africano ou, quando muito, exibindo um profundo olhar de tristeza pelos picadeiros mundo afora. Além da beleza, o comportamento tranquilo dos moradores do Canil e Escola Emanuel impresionam e emocionam os felizardos que têm a oportunidade de conhecê-los.
O adestrador e proprietário do local, Ary Marcos Borges, conta que os primeiros exemplares de tigres foram doados por uma família romena. Logo depois a chácara começou a receber animais apreendidos pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por ordem judicial. Temos recebido leões e tigres de apreensões feitas tanto no Paraná como em outros Estados, conta Borges.
Segundo o adestrador, atualmente a reserva só é licenciada para receber animais exóticos, mas com a transformação em centro de triagem e zoológico o local poderá receber também animais da fauna brasileira vítimas de situações como maus tratos, desmatamento e tráfico. Fundamos recentemente o Instituto Emanuel para trabalhar com educação ambiental e combate ao tráfico de animais, que só perde para o tráfico de drogas e de armas. A situação é tão grave que restam apenas 400 exemplares de tigre siberiano, o maior de todos, no seu habitat. Borges lembra que no caso das espécies menores os tigres de Bengala e os de Sumatra a realidade é ainda pior: os que ainda existem estão todos em cativeiro. No mercado negro da China, uma pele de tigre pode chegar a 25 mil dólares, o que incentiva as caças ilegais.
Borges sempre foi um apaixonado por animais, mas confessa que nunca se imaginou cercado por tantas feras. A sensação é que somos privilegiados. Ele tem razão. Ary, a mulher Raquel e as três filhas do casal não são uma família comum. O Ariel que nasceu após um trabalho de parto demorado, por meio de cesariana (a mãe chegou prenha ao canil) dormiu um ano na nossa cama. Eu acordava várias vezes à noite para cuidar dele, dar mamadeira, fazer massagens. Era como cuidar de qualquer outro bebê, conta Raquel, que agora repete os cuidados de mãe com os filhotes Baruck (um mestiço de tigre siberiano com uma tigresa de Bengala) e Lula (mestiço de tigre siberiano com uma tigresa de Sumatra, nascido em 29 de dezembro).
Uma caixa na cozinha da família abriga várias mamadeiras, leites especiais e suplementos vitamínicos. Na geladeira, potinhos cheios de carne picada estão sempre no jeito para os lanchinhos de Baruck. Com pouco mais de 70 dias, o filhote come cerca de meio quilo de carne por dia. No caso dos maiores e dos adultos, a conta chega a uma média de sete quilos de carne, dia sim, dia não.
Uma câmara fria ao lado do recinto (como é chamada a moradia dos tigres e leões) guarda as refeições. É importante oferecer a eles também as vísceras de grandes animais (bois e cavalos) e pedaços inteiros, com osso e couro, detalha Raquel. O casal, que não recebe nenhum tipo de apoio financeiro de órgãos oficiais, conta com doações da comunidade para saciar de maneira adequada a fome dos felinos. O pessoal da Polícia Rodoviária, por exemplo, quando encontra um cavalo vítima de acidente nas estradas, avisa a gente, informa Ary.
A trabalheira exigida pelos bichos é minimizada pela proprietária. Para mim é tudo muito gratificante. Não nos cansamos dessa convivência. Eles curam até o nosso estresse, garante Raquel, que já se acostumou à sensação de ter a mão transformada em chupeta por Ariel. No começo ele chupava um dedo, depois dois, agora ele quer a mão inteira, conta ela, que nunca chegou a pensar na possibilidade de ataques por parte dos animais. Tudo o que fazemos de bom, eles retribuem com muito carinho, e isso é só o que queremos. Mas precisamos ter a noção de que às vezes uma brincadeira deles, como um pulo, pode nos machucar, diz Raquel, lembrando que os exóticos moradores da chácara chegam a pesar 300 quilos, na fase adulta.


