Amigos consagram binacionalidade
Um eterno terremoto suave. Ao permanecer na Sala de Comando Central de Itaipu, cérebro da hidrelétrica recordista mundial em produção de eletricidade, a trepidação constante dá a dimensão do gigantismo e da força que estão nas mãos dos 65 operadores técnicos que garantem o funcionamento da usina, em cinco revezamentos de turno.
Milhares de botões e um painel repleto de indicadores ajudam brasileiros e paraguaios a controlarem a situação na megaestrutura que integrou física e economicamente os dois países.
Mais que colegas, o brasileiro Carlos Flávio Castilho Berni, 31 anos, e o paraguaio Tomas Rafael Gonzales Mir, também 31 anos, são companheiros na aventura de se prepararem e ingressarem no universo binacional de Itaipu.
Os dois trabalham há 12 anos como operadores técnicos, antes estudaram juntos por sete meses no Centro de Formação de Furnas, em Passos (MG). Prepararam-se mais um mês em Assunção, na Escola Técnica de Eletricidade e aprenderam um portunhol básico e útil para conversas rápidas. Quando o Rafa quer me sacanear ele manda as piores partes em guarani, brinca Carlos Flávio.
Foram contratados solteiros. Hoje são casados. O brasileiro, paulista de Ourinhos, tem três filhos. O paraguaio, que vive em Ciudad del Este, tem cinco. Da convivência surgiram dois profissionais de admiração mútua pela cultura nacional do colega.
A união entre os paraguaios de Itaipu é bem superior a nossa. Além disso, são sinceros e fiéis, lembra Carlos Flávio. Hoje sei o gigante que é o Brasil. Um país grandioso, plural, cosmopolita, se entusiasma Gonzales Mir.
O paraguaio, estudante do último ano de engenharia mecatrônica na Universidade Católica de Ciudad del Este, aprendeu a saborear periodicamente uma feijoada. O brasileiro não dispensa mais uma empanada. É uma pena que não podemos aproveitar mais nossas diferenças para crescermos mais ainda, observa Carlos Flávio.
O paraguaio lembra que dentro da usina pouco importa a nacionalidade do companheiro. Precisamos de máxima concentração no trabalho. Temos pouquíssimo tempo para lembrar que não somos do mesmo país.
O cotidiano no local de trabalho pode ser considerado único por vários motivos. Os poucos diálogos não são sinais de tranquilidade: o monitoramento requer serenidade mas as intervenções devem ser feitas com extrema rapidez de raciocínio.
A iluminação artificial, o barulho moderado e marcante, tiram quase que totalmente a noção de tempo. Os turnos variam muito, conforme a escala. Não existe, portanto, a rotina dos horários. Em datas cívicas dos dois países, feriados religiosos ou festas nacionais, o trabalho é realizado normalmente.
Até mesmo a paixão pelo futebol tem que ser deixada de lado. Para a Copa do Mundo na França (ou Mundial para os paraguaios), a expectativa é que o trabalho pode até impedir a dupla de acompanhar os jogos, mas ambos já estão combinando de festejar as vitórias. Nós somos privilegiados. Temos dois times para torcer, comemora o paraguaio.Ney de SouzaTomas e Carlos são companheiros na aventura de ingressarem no universo binacional de ItaipuLúcio Flávio Moura
Especial para a Folha





