Nova York, 02 (AE) - O chefe do Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, general Charles E. Wilhelm, lançou um alerta aos líderes políticos da América Latina, na semana passada, sobre o estado de espírito dos generais e almirantes da região com quem, segundo disse, desenvolveu uma relação pessoal de confiança em seus dois anos no posto incumbido de zelar pelos interesses de segurança americanos no hemisfério. "Gostaria de compartilhar com vocês o que eles me dizem em nossas conversas particulares", disse Wilhelm, na última sexta-feira, ao falar à Oitava Conferência sobre as Américas, promovida pelo Wall Street Journal.
"Eu detecto na região uma crescente frustração entre os líderes militares com a espera dos frutos da democracia", afirmou o chefe militar americano. "Em nossas conversas, eles me dizem: General, nós ouvimos todas as suas preleções sobre a democracia jefersoniana; concordamos com a redução de nossas forças pela metade; ajudamos a pôr nossos países no caminho da democracia; mas o que recebemos de volta? No passado, havia problemas, tínhamos ditaduras militares, mas havia ordem; agora vivemos em sociedades ameaçadas pelo crime; general, onde estão os benefícios da democracia?"
"Essas conversas preocupam-me enormemente", disse Wilhelm. Segundo o general americano, os EUA podem ajudar a abrandar a frustração de seus colegas da região ressuscitando o programa de financiamento militar externo para a América Latina, que existiu durante a guerra fria. A menção a esse programa pode ser interpretada como uma confirmação de que, nos cálculos do Pentágono, a modernização das desequipadas Forças Armadas da região é importante não apenas do ponto de vista do interesse comercial dos EUA. Ela teria o benefício adicional de melhorar a auto-estima e o sentimento entre os militares da região sobre o regime democrático. Wilhelm abordou a questão com cuidado, mas não deixou dúvida de que o reequipamento das Forças Armadas da América Latina continua importante na agenda de Washington. "A minha região é a menos militarizada do planeta e representa apenas 4% das compras mundiais de material bélico", disse ele.
A Colômbia, que está hoje no centro das preocupações de segurança de Washington no continente, será o primeiro teste da estratégia americana de fornecer aos militares da região os instrumentos de que necessitam para cumprir sua tarefa. Wilhelm confirmou que, nos próximos dias, deverá concluir com representantes do governo de Bogotá negociações sobre "uma importante suplementação" do programa de assistência e treinamento para apoiar as Forças Armadas colombianas no combate ao narcotráfico.
Mas o chefe do Comando Sul foi claro ao falar sobre a natureza da ameaça e sobre os limites da participação dos Estados Unidos. E confirmou as divergências de diagnóstico que a crise colombiana gerou no governo americano para reiterar "que os EUA não intervirão com tropas" no país andino. Indagado pelo Estado, antes da palestra, se vê os movimentos que combatem o governo de Bogotá como "narcoguerrilhas", ou seja, organizações cuja razão de ser seria hoje o tráfico, Wilhelm fez uma distinção. "Não, eu não concordo com o general (Barry) McCaffrey, que foi meu comandante e é meu chefe, disse ele, referindo-se ao coordenador da política antidrogas da Casa Branca, que ajudou a alimentar os rumores sobre uma possível intervenção americana na Colômbia há dois meses propagando a tese de que a guerrilha e o tráfico eram a mesma coisa e haviam-se transformado numa ameaça à segurança nacional que os EUA não podiam deixar sem resposta.
"Há dois lados no conflito na Colômbia: um é o combate aos narcóticos, o outro, o combate à insurreição", disse Wilhelm. "A meu ver, a política dos Estados Unidos para a Colômbia é clara, tem sido consistente e não têm ambiguidades", continuou. Estou autorizado a apoiar os colombianos, por meio de treinamento e aconselhamento técnico, a combater a ameaça representada pelo narcóticos." O limite do envolvimento americano é a linha, nem sempre fácil de determinar, onde o narcotráfico e a rebelião guerrilheira se encontram, indicou Wilhelm. Mas vemos a insurreição como um problema colombiano, que deve ser resolvido entre colombianos", afirmou o general, para deixar claro que os militares americanos reconhecem no conflito no país andino um forte potencial para se transformar num novo Vietnã, experiência que os EUA não estão interessados em repetir.
Onde a guerrilha estiver específica e diretamente envolvida com o tráfico de drogas, os EUA não terão problemas em apoiar a ação das Forças Armadas colombianas. Mas não se envolverão em ofensivas contra os movimentos guerrilheiros. Ele previu que o conflito não será resolvido por um desfecho militar, mas numa mesa de negociação. "Mas, para que essas negociações sejam bem sucedidas, as forças de segurança da Colômbia terão, primeiro, que afirmar seu poder no campo de batalha, disse.

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