América Latina perdeu US$ 50 bi em investimentos do BID este ano
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de dezembro de 1999
Por Gustavo Alves e Maria Fernanda Delmas 
Rio, 02 (AE) - O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, afirmou hoje que a América Latina sofreu queda de US$ 50 bilhões em investimentos externos neste ano. Durante seminário sobre os 40 anos do BID, no auditório do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), Iglesias apontou a vulnerabilidade da região a choques externos, como os provocados pelas crises russa e asiática, como responsáveis por este declínio.
O presidente do BID lembrou que a economia da América Latina é de mais alta volatilidade no mundo - daí sua grande influência a choques externos. No discurso de abertura do seminário, Iglesias lembrou, no entanto, que os países da região também mostraram, neste ano, grande capacidade de recuperação diante destes choques. O Brasil foi citado como um bom exemplo do fato pelo presidente do BID.
A redução da vulnerabilidade é uma das três metas principais do BID na América Latina, afirmou Iglesias. As outras duas são a redução da desigualdade social e o crescimento econômico. "A América Latina não pode se conformar com um crescimento anual de 3%, tem de ser pelo menos o dobro", avaliou. O aumento das exportações é "fundamental" para o desenvolvimento dos países latino-americanos, segundo Iglesias.
"A abertura dos mercados e o protecionismo econômico continuam sendo um dos problemas mais dramáticos", afirmou o presidente, defendendo a redução das barreiras durante as negociações da Organização Mundial de Comércio (OMC), nos Estados Unidos. "Espero que a rodada de Seattle traga avanços".
Além de ter a economia mais vulnerável, a América Latina tem a pior distribuição de renda do mundo, alertou Iglesias. Ele defendeu maior importância a programas sociais na América Latina para diminuir a desigualdade, terceira meta do banco multilateral. "Não foi dado a isto, na região, tanta importância quanto a recebida pelos programas da mudança de produtividade", avaliou.
O presidente do BID informou que o volume de desembolsos da instituição deve voltar aos patamares normais de US$ 8 bilhões a US$ 9 bilhões no ano que vem. No ano passado, em função das crises internacionais, o banco teve de liberar mais dinheiro: os empréstimos foram de US$ 11,5 bilhões. Neste ano, o volume deve chegar a US$ 10,5 bilhões.
Somente para o Brasil o BID está liberando, este ano, US$ 4,5 bilhões - incluindo US$ 3,3 bilhões da ajuda emergencial coordenada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 2000, o País voltará a receber de US$ 1,3 bilhão a US$ 1,5 bilhão. Do montante para o Brasil neste ano, US$ 1,2 bilhão foi para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o que representa a mais alta captação externa do banco brasileiro. O dinheiro irá para investimentos sociais privados e projetos de micro e pequenas empresas.
Segundo Iglesias, em mais de 15 países o BID empresta dinheiro para reforma parlamentar e da Justiça. Há dois meses o banco assinou com o Congresso Nacional, em Brasília, um financiamento de US$ 25 milhões para desenvolvimento tecnológico. "O objetivo é dar mais transparência à população da ação parlamentar", afirmou o ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Martus Tavares. O Congresso, por exemplo, terá de colocar as leis disponíveis na Internet.
Há quatro ou cinco anos, explicou Iglesias, o BID começou a trabalhar diretamente com o setor privado brasileiro. "Foram US$ 750 milhões em oito projetos, como a Linha Amarela, no Rio", disse. Para ele, é importante também a área de microcrédito. O banco já emprestou US$ 5 milhões para fortalecer instituições de microfinanciamento. Recentemente, o BID também aprovou US$ 250 milhões para um projeto de educação secundária no Brasil. O Ministério da Educação repassará o dinheiro para alguns Estados.


