Washington, 10 (AE) - A América Latina concluirá este século sem o otimismo que marcou o começo da década e com os mesmos problemas dos anos 80: recessão, desemprego, pobreza crônica, violência, dificuldades para pagar os credores e, em alguns casos, ameaças à democracia.
"É uma decepção, especialmente se pensarmos nas expectativas que existiam para a América Latina e suas relações com os Estados Unidos", afirmou Peter Hakim, presidente do centro acadêmico Inter-American Dialogue. "Todos apostavam nos anos 90 e na recuperação da região depois da década perdida dos 80."
Até 1997, havia motivos de sobra para tanto otimismo. A década começou com a pacificação de uma América Central, destruída por guerras civis e repressão, e pelo fim da última ditadura militar da América do Sul. Em 1990, os civis assumiram o poder no Chile, depois de 17 anos de governo do general Augusto Pinochet.
Brasil e Argentina, inimigos históricos e recordistas em inflação, não apenas estabilizaram suas economias como decidiram integrá-las. Com o Uruguai e o Paraguai formaram o Mercosul - um bloco econômico que, em meados da década, era um símbolo de êxito. Em pouco tempo, os quatro países quadruplicaram o comércio regional, associaram-se ao Chile e à Bolívia e iniciaram negociações para incluir os demais vizinhos.
O Mercosul, com seu futuro promissor, acabou atraindo não apenas investimentos estrangeiros, como a atenção dos formuladores de política da União Européia e dos Estados Unidos, até então voltada para o Leste Europeu. Essa situação mudou com a crise.
Chile e Colômbia - que sobreviveram à crise da dívida externa - enfrentam agora a primeira recessão em décadas. Às vésperas das eleições presidenciais de dezembro, os chilenos estão com um índice de desemprego de 10% - o mais alto em dez anos de democracia.
Os colombianos estão pior: apesar de guerrilheiros e narcotraficantes terem semeado violência no país há pelo menos três décadas, a economia cresceu uma média anual de apenas 4% de 1984 a 1997. Este ano, pela primeira vez em mais de meio século, o Produto Interno Bruto (PIB) encolherá.
A crise econômica chega no momento errado. O presidente da Colômbia, Andrés Pastrana, tem o apoio dos EUA para negociar a paz com os guerrilheiros. Mas precisa obter resultados rápidos: no fim do ano, os americanos entregarão aos panamenhos o Canal do Panamá, por onde passam 80 rotas marítimas e 14% de seu comércio, e desativarão suas operações contra o tráfico de drogas na região.
Na semana passada, em Washington, o Congresso americano exigiu do presidente Bill Clinton providências para impedir a formação de um "Narco-Estado" na Colômbia, capaz de desestabilizar os países vizinhos e colocar em risco o Canal do Panamá. Além de produzirem 80% da cocaína do mundo e terem conquistado 75% do mercado de heroína dos EUA, os narcotraficantes financiam a cada vez mais poderosa guerrilha colombiana, que tem demonstrado pouca vontade de negociar com Pastrana.
E um desemprego de 20% nas principais cidades só contribui para enfraquecer o poder de barganha do governo.
"A única boa notícia deste ano, se pensarmos bem, é que o Brasil não caiu no precipício", disse Hakin, referindo-se à desvalorização do real em janeiro e a inesperada recuperação da economia brasileira.
Em compensação, a crise afetou alianças estratégicas na região (divisões dentro do Mercosul), afastou investidores estrangeiros, e ainda corre o risco de se alastrar.
Este mês, o Equador está na mira dos investidores internacionais. Sem recursos para pagar seus credores, nem força política para implementar as reformas necessárias, o governo equatoriano tampouco está em condições de negociar um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
"Se o Equador reescalonar a sua dívida externa isso poderá repercutir em toda a região", disse Paulo Leme, economista para América Latina do Banco de Investimentos Goldman Sachs. "Traria de volta memórias da década de 80", explicou.
Os investidores também estão esperando os resultados das eleições presidenciais na Argentina, em outubro. Declarações de um dos candidatos sobre a possibilidade de renegociar a dívida colocou em risco a credibilidade conquistada nesta década.
As eleições no Peru também preocupam. O presidente Alberto Fujimori conseguiu manter a economia sob controle apesar da crise internacional, liquidou a guerrilha maoísta Sendero Luminoso e reduziu em 56% o cultivo de coca. Mas seu segundo mandato está por terminar e existem temores de que insista em disputar outro, criando reações negativas.
"A América Latina avançou muito no processo de democratização, mas algumas instituições políticas e jurídicas não se fortaleceram tanto quanto se esperava", disse Hakim. "Agora existem ameaças de um novo tipo de autoritarismo."
Nesse sentido, a principal preocupação é com a Venezuela. Ao eleger 121 dos 131 membros da Assembléia Constituinte, que reformará a Constituição, o presidente Hugo Chávez tem hoje mais poderes do que esperava ter em 1992, quando era tenente-coronel e líder de duas tentativas de golpe de Estado. Desde a sua eleição, ele tem aumentado a força dos militares, colocando-os em cargos no governo e prometendo o direito de voto para soldados na ativa.
Hoje a América Latina ainda atrai a atenção do governo dos EUA, mas não pelos mesmos motivos que em 1995, 1996 e até 1997. Fala-se mais em problemas políticos e econômicos que na criação de uma área de Livre Comércio das Américas (Alca) - proposta lançada pelos EUA, para integrar as 34 democracias do hemisfério ocidental até 2005.

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