Ameaça de moratória argentina derruba bolsa
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domingo, 11 de julho de 1999
Por Ariel Palacios 
Buenos Aires, 12 (AE) - Até esta segunda-feira (12), o papa João Paulo II nunca havia imaginado que poderia ter tanta influência sobre a Bolsa de Valores de Buenos Aires. As declarações de Eduardo Duhalde, candidato governista à presidência do país, de que iria à Roma para pedir ao pontífice que intercedesse em favor da Argentina no adiamento do pagamento da dívida externa, causaram uma drástica queda, de 8,66%, na laica bolsa portenha. Duhalde baseia suas declarações na exortação que o papa fez recentemente para que os países ricos perdoem a dívida dos países pobres.
Segundo ele, hoje governador da poderosa província de Buenos Aires, sua proposta é que o pagamento da dívida seja adiado por um ano, durante 2000, para que a economia do país possa recuperar-se da recessão. Duhalde sustenta que não está pedindo um perdão da dívida e só quer "um tempo". Duhalde sustentou que vai encontrar-se com João Paulo II e pedir quase um milagre que suavize o desembolso de US$ 80 bilhões em principal e juros que o país terá de fazer até 2003.
Às declarações de Duhalde somou-se o rescaldo dos rumores de renúncia do ministro da Economia, Roque Fernández, no fim de semana. O motivo da saída seria sua recusa em aumentar o gasto público para cobrir a dívida do sistema previdenciário estatal, o Pami, que alcança US$ 800 milhões. Menem havia pedido a Fernández que solicitasse ao Fundo Monetário Internacional (FMI) um aumento do limite do déficit. Fernández recusou-se, ameaçou sair do governo, e Menem voltou atrás, confirmando o ministro em seu cargo, e sustentando que ele tem todo o seu apoio.
Não há esperanças de que as nuvens sobre Buenos Aires se dissipem nos próximos meses: o horizonte a médio prazo é mais sombrio ainda, já que a herança que Menem deixará é pesada: dados preliminares do Instituto de Estatísticas e Censos da Argentina indicam que o desemprego subiu de 12,4% para 14,7%. Isso constituiria o fim da tendência de redução do desemprego desde outubro de 1996. Diversos consultores consideram que em outubro, mês das eleições, o desemprego chegará a 17%.
Além disso, a União Industrial Argentina se reunirá amanhã com Fernández para mostrar uma pesquisa que demonstra que a recessão causou a perda de 200.000 postos de trabalho. As empresas mais atingidas são as pequenas e médias, em que a redução do emprego foi de 4,4%. Entre os setores afetados estão as indústrias, com uma queda de 7,8%; os bancos, com uma redução de 4,6%, e as empresas de serviços, com perdas de 3,6%. Segundo Ernesto Kritz, diretor do Centro de Estudos Trabalhistas, existem no país 2 milhões de desempregados.
Para 1999 espera-se uma queda do PIB superior aos 2,8% durante a crise mexicana, em 1994. A consultoria Broda considera que este ano, a queda do PIB será de 3,6%. Além disso, a consultoria calcula que a recuperação da recessão será muito mais lenta: a saída do fundo do poço não está prevista para antes de meados de 2001. Por isso, calcula-se que no total, desde o início da recessão, há extamente um ano, levará 2 anos e 9 meses para poder recuperar o nível de atividade de maio de 1998. A saída da crise mexicana foi mais rápida: demorou um penoso ano e meio.


