Acorrentados pelos pulsos, alguns cobrindo o corpo com a bandeira brasileira, 40 vendedores ambulantes iniciaram, às 6 horas de ontem, uma greve de fome para protestar contra a retirada de suas barracas no Largo da Concórdia, centro de São Paulo, pela Prefeitura. Em fila indiana, uns em pé, outros sentados em cadeiras ou nas calçadas enfrentavam o sol forte. Três camelôs - um homem e duas mulheres - não aguentaram o sacrifício e desmaiaram, sob os olhares indiferentes de uma equipe da Rondas Municipais (Romu) da Guarda Civil Metropolitana.
Depois de socorridos por amigos, os três foram levados para suas casas. Às 15h30, o grupo fez uma reunião com o coordenador Afonso José da Silva, do Sindicato dos Camelôs Independentes, que também estava acorrentado. Todos decidiram continuar com a manifestação, apesar do calor e da fome. ‘‘Vamos prosseguir com o protesto até que tenhamos sucesso, com o prefeito atendendo as nossas reivindicações’’, garantia Silva.
Enquanto ele falava, a ambulante Ana Maria Gaques, de 50 anos, sofreu uma tontura e precisou ser amparada pelas colegas para não cair. ‘‘Estou sem comer desde as 10 horas de hoje (ontem), disse depois de lhe terem arrumado uma cadeira. ‘‘Mesmo assim vou continuar aqui’’,diz.
Ela contou que fiscais da prefeitura e guardas municipais a retiraram no dia 24 de agosto da Rua Saião Lobato, no Brás, onde tinha uma barraca de lingerie. Com o que ganhava dava para cuidar de cinco filhos e quatro netos. Transferida para o bolsão do Largo da Concórdia, não conseguiu os mesmos rendimentos. ‘‘No sábado vendi apenas R$ 5,00’’, disse. ‘‘Com esse dinheiro não dá para tomar um lanche aqui e nem para levar comida para casa’’, afirmou. ‘‘Se for para passar fome assim, prefiro ficar sem comer para protestar’’, completou.
Com o objetivo de animar os manifestantes, Silva passou a informação de que o secretário das Administrações Regionais, Domingos Dissei, irá receber às 14 horas de hoje uma comissão de ambulantes para tratar do assunto.
Nesse encontro, o coordenador do sindicato pretende apresentar novamente um projeto para a colocação de 1.503 camelôs que foram retirados de várias ruas do Brás.
‘‘Nós queremos colocar uma barraca a 10 metros de distância uma da outra em frente as colunas das lojas’’, disse. ‘‘As barracas obedeceriam a um projeto paisagístico e urbanístico, decorando as calçadas’’, explicou.
‘‘Na verdade o que eles querem é voltar a ocupar as calçadas, tumultuando as entradas das lojas e fazendo uma concorrência desleal, pois não pagam impostos’’, reclamou um comerciante que pediu para não ser identificado. ‘‘A Prefeitura já criou um bolsão para os ambulantes no meio do Largo da Concórdia; porque eles não vão lᒒ, acrescentou.

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