São Paulo, 26 (AE) - O esquema de cobrança de propinas na região central de São Paulo não se limitava ao "pedágio" semanal pago aos fiscais da Administração Regional da Sé. O ambulante Nelson Augustaitis revelou hoje, em depoimento à polícia, que também era extorquido quando retirava material apreendido no depósito da regional e que pagava propinas para vários fiscais da regional.
Segundo Augustaitis, que controla 13 pontos de vendas de cachorro-quente na na região central, quando um carrinho ou barraca era apreendida, ele tinha de pagar R$ 100,00 para liberá-lo. "Se não pagasse, eles seguravam o processo de liberação do material", disse Augustaitis. Mesmo assim, ele nunca conseguiu de volta as mercadorias que eram apreendidas junto com o carrinho, como bebidas e alimentos. Em depoimento à polícia, algumas testemunhas revelaram que as mercadorias ficavam com os próprios fiscais.
Ontem (25), o ambulante revelou à polícia que o ex-vereador e deputado estadual Hanna Garib (suspenso do PPB) tinha conhecimento do esquema de propinas na regional da Sé. No Sábado de madrugada, a equipe do delegado Romeu Tuma Júnior e integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Fiscais realizaram uma diligência no depósito de Augustaitis e apreenderam um computador, agendas e canhotos e cópias de cheques.
No total, segundo Augustaitis, ele pagava cerca de R$ 3 mil por semana em propinas. Além do "pedágio" semanal de R$ 2 mil para o chefe do depósito da regional, Antônio Alberto Alves, o ambulante também era obrigado a desembolsar dinheiro esporadicamente para outros fiscais. Um deles é uma pessoa identificada apenas como Geraldo, que já está aposentado. Geraldo, diz Augustais, era chefe da volante, equipe de fiscais que percorria toda a região central.
"Se eu não pagasse tanto dinheiro, hoje estaria bem de vida e aposentado", disse Augustaitis. Com uma dívida de cerca de R$ 350 mil, ele tem medo de sofrer represálias por ter feito as denúncias. Disse que conhece Garib há cerca de 20 anos. Sempre que ia reclamar da pressão dos fiscais para o vereador, suspostamente um dos principais beneficiários das propinas, Garib dizia que ia "conversar com o João Bento", afirmou Augustaitis, referindo-se ao ex-administrador regional da Sé, João Bento dos Santos Filho.
Semanalmente, Augustaitis levava os R$ 2 mil para Alves. Ele, porém, nunca pagou diretamente para o vereador. "Eles sempre diziam que era para os "homens"", diz Augustaitis. Apesar do pagamento, o ambulante diz que sempre era pressionado a aumentar o valor da extorsão. Ele supõe que os próprios ambulantes participavam do esquema. Como ele controlava vários pontos na região central, ele supõe que outros camelôs avisavam os funcionários da regional ou o próprio vereador de que ele estaria ganhando muito dinheiro. "Aí eles ficavam me pressionando para pagar mais", denunciou. Deputado - Apesar de nunca ter pego dinheiro diretamente, o próprio Garib teria apresentado Alves para Augustaitis. "Ele me apresentou o Alberto e disse que, a partir daquele momento, eu teria de me acertar com ele", disse o ambulante.
Hoje, o delegado Tuma Júnior iria se encontrar com o procurador-geral de Justiça, Luiz Antônio Marrey. Ele iria entregar documentos referentes às investigações para Marrey, que preside o inquérito civil que investiga o deputado.

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