Seu nome já é sonoro - Peu Meurrahy. Ele é percussionista, atualmente está na banda da Marisa Monte, cantor e compositor. Mais que isso, é um ambientalista, preocupado com um tipo de lixo que não pára de crescer, o pneu. ''Estava morando em São Paulo. Um dia, vi um monte de pneus na Marginal Tietê, um cenário horrível, o lixo destruindo a natureza. Isso foi há uns cinco anos'', conta. Aquela cena mudou a vida do músico, que resolveu procurar uma solução para o problema. E a solução foi musical. ''Comecei a viajar em como transformar o mudo pneu em tambor? Ele não emite qualquer tipo de som, ele abafa o som. Foi o maior desafio da minha vida.''
De volta à Bahia, foi chamado de maluco, de visionário, resolveu fazer os pneus falarem, reciclando-os. ''A reciclagem do pneu é um desafio para os ambientalistas. Até hoje nenhum pneu se decompôs (foi inventado em 1891 pelos irmãos Michelin), e só em São Paulo são jogados fora 1 milhão de pneus por ano.'' Depois de muitos testes em serralharias, Peu inventou a engenhoca, uma estrutura metálica que encaixada dentro do pneu, faz com que ele soe. ''A primeira que fiz não ficou boa, era como pegar um surdo-mudo levar para a cirurgia e curá-lo.''
Na quarta tentativa nascia o Pneu Drums, um novo tipo de tambor, totalmente reciclado. ''Ele tem afinação e pode ser tocado girando, o músico não precisa ficar parado. A timbragem da borracha tem personalidade, é um som mais grave, mais pesado. É uma espécie de zabumba futurista'', define.
Peu começou a dedicar as horas vagas para o Pneu Drums. Começou a ''passear'' em lixões e aterros, conversar com borracheiros e serralheiros, à procura de novos modelos de pneus, de carrinho de pedreiro a Fórmula 1, e técnicas de manuseio. Ele pretende fazer cem tambores em seu ateliê.
Por enquanto não vendeu nenhum, até porque não é essa sua intenção. Apenas presenteou Naná Vasconcelos, que adorou a novidade.
Recentemente ele participou de um projeto educacional em Salvador (Miake). ''As crianças aprenderam a tocar muito rápido e adoraram, depois não queriam nem devolver os tambores'', conta. ''É a transformação do lixo em arte'', diz.
E não são apenas tambores. ''Faço mesas de centro, camas, puffneus, cadeiras, mesas e caixas de som'', conta o percussionista. Além disso inventou um palco móvel, que monta em cima de sua Ford Rural 67, para poder viajar para vilarejos do interior da Bahia, como sua cidade natal, Armagosa. ''É o projeto Reciclagem, Movimento e Desenvolvimento, ou simplesmente Zona Rural. A comunidade local é avisada por um carro de som, a Rural mesmo, e abro espaço para os artistas da região que queiram fazer as suas performances em praça pública, fazemos um show e palestra sobre reciclagem.'' Quem patrocina tudo isso? ''Ninguém, mas já estou pensando nisso, vou procurar os fabricantes de pneus'', diz. O Brasil hoje produz cerca de 32 milhões de pneus por ano e o reaproveitamento com a recauchutagem é de apenas 40%.
O nome de batismo de Peu é Jâmisson Jorge Santana dos Santos. Peu é seu apelido de criança, quer dizer bola, e Meurrahy é o sobrenome de sua esposa. Mas pelo jeito ele ficará para história como Peu do Pneu.

mockup