Arquivo FolhaPáriasPalafitas em Macapá: há duas décadas, apenas seis milhões de pessoas viviam na Bacia Amazônica; hoje são 17 milhõesEntrar no Teatro Amazonas, em Manaus, porto fluvial situado no coração da floresta tropical brasileira, é como aterrissar no cenário de um conto de fadas tropical. O teatro do século 19, construído na época em que o boom da borracha levou riqueza e extravagância mundana à selva, foi restaurado ao seu esplendor original: sólidas colunas coríntias, um pórtico art nouveau ornamentado, foyer de mármore italiano e - 20 andares acima - um domo dourado. As elites locais podem não enviar mais sua roupa para lavanderias da França (como faziam em determinada época, segundo a lenda), mas ainda lotam o teatro para ouvir Beethoven e Mozart, e, em uma premiSre recente, assistiram à opereta A Viúva Alegre. Reclinados em cadeiras recobertas de veludo, os espectadores em busca de mais distração só tinham de olhar para o teto abobadado, onde a Torre Eiffel está pintada com abundância de detalhes.
Mas, assim que o elegante público saiu da casa de ópera, com ar condicionado, para o pavor e a névoa da noite amazônica, uma realidade muito diferente - e inquietante - intrometeu-se. Imediatamente abaixo dos majestosos degraus de granito do teatro, crianças de rua, com roupas amarfanhadas, percorriam a praça, vendendo balas e cigarros e apregoando sua surpreendente pobreza. Na manhã seguinte o diário local publicava a manchete: ‘‘Um assassínio a cada 24 horas’’. E aquela não era a pior notícia do dia. As autoridades sanitárias de Manaus, diziam os jornais, lutavam, desordenadamente, para controlar uma epidemia de dengue, alimentada pelas condições insalubres da cidade e pela superpopulação. De fato, não muito longe do teatro localiza-se o Buraco do Pinto (o nome já veio em português), um valo cheio de lixo onde os pobres se estabeleceram à sombra de edifícios altos. A oeste, onde o calçamento das ruas dá lugar à lama, fica Valparaíso, antiga fazenda agora convertida em favela fétida. Diariamente chegam novos migrantes a esse lugar, onde erguem barracos de madeira, lata e papelão - agravando a situação de uma cidade que já está quase explodindo com 1,2 milhão de pessoas.
Bem-vindos ao Amazonas, o mais recente pesadelo ‘‘urbano’’ da América Latina. Não, a floresta tropical não desapareceu. Cerca de 87% da floresta tropical do Amazonas - que cobre 3 milhões de km quadrados - ainda permanece intacta. Mas a terra que o mundo gosta de ver como se fosse um Eden equatorial - para a qual a maior ameaça são os criadores de gado e pioneiros que abrem clareiras - agora enfrenta um perigo menos célebre: a explosão urbana. As cidades do Amazonas são vítimas não da clássica bomba populacional alimentada por índices de fertilidade crescentes, mas de uma torrente colossal de migrantes, muitos dos quais foram exortados por uma sucessão de governos ansiosos por ocupar e dar forma à sua vasta fronteira interna. Há duas décadas apenas seis milhões de pessoas viviam na Bacia Amazônica do Brasil - a grande maioria delas na zona rural. Hoje são 17 milhões de pessoas, e 17% desse total vive nas cidades - selvas de concreto que se alastram irregularmente, com casas de moradias e alto edifícios de escritórios, onde o crime e o contágio prosperam. ‘‘Nosso maior problema no Amazonas’’, diz o ministro do Ambiente, Gustavo Krause, do Brasil, ‘‘não é o verde, e sim o marrom.’’
Naturalmente, o boom urbano e as pragas de plantas não são desconhecidos no mundo em desenvolvimeno, e ainda menos no Brasil, onde 70% da população está espremida em megacidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Entretanto, a ferocidade do crescimento urbano no Amazonas apanhou os cientistas, ambientalistas e planejadores desprevenidos. Durante anos a expressão ‘‘salvar o Amazonas’’ significou salvar as florestas tropicais. Graças a ativistas famosos como Francisco (Chico) Mendes, líder trabalhista brasileiro e ecologista que foi assassinado há uma década, o destino da floresta figura com destaque na agenda internacional. Agora há legiões de cientistas examinando a floresta; ativistas mobilizados à sua volta e - em foros como a Conferência de Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992; há diplomatas traçando planos bem-intencionados para preservá-las.

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