Amazônia está secando, afirma bióloga
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domingo, 03 de maio de 1998
Agência Estado 
Arquivo FolhaTragédiaIncêndio atingiu cerca de 15% do Estado de Roraima nos meses de fevereiro e março e revelou fragilidade do país em combater o fogo A bióloga mineira Adriana Moreira, presidente do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), afirmou ontem, em Belém (PA), que cerca de 2,7 milhões de quilômetros quadrados da floresta amazônica estão secando. Isso ocorre porque as queimadas começam a atingir áreas de mata fechada, que funcionam como uma espécie de barreira úmida contra o fogo. O tamanho da área atingida representa 60% de toda a região e inclui o Estado do Pará, que segundo Adriana, deve enfrentar em 98 uma das piores secas dos últimos tempos.
Para ela, que promoveu uma discussão com pesquisadores e técnicos do Ipam em Belém para encontrar soluções para o problema, as queimadas e a seca estão retirando a umidade do solo, diminuindo a quantidade de chuvas e obrigando as plantas a buscar água nas raízes do subsolo. Ela afirma que o fato de a floresta sempre parecer verde também esconde a necessidade que as árvores têm de absorver mais água diante da agressão que vem sofrendo.
A falta de água no solo amazônico, garante a bióloga, está fazendo a floresta padecer de estresse hídrico. A resposta a esse estresse revela-se no aumento da queda de folhas das árvores e, através da exploração madeireira, no aumento do buraco na copa das árvores, permitindo que a luz do sol alcance o solo. A massa de folhas e galhos, geralmente úmida, transforma-se e fica seca, acabando por virar material combustível. Basta uma queimada escapar da área agrícola e invadir a floresta para termos um incêndio de grandes proporções, disse Moreira.
Essa destruição silenciosa da floresta não é registrada pelos satélites porque, explica a bióloga, a floresta está em pé. Os pesquisadores do Ipam realizaram um estudo, ano passado, ao longo do chamado arco de desmatamento, que engloba seis municípios: Paragominas e Santana do Araguaia, no Pará, Alta Floresta, em Mato Grosso, Ouro Preto do Oeste e Ariquemes, em Rondônia, e Rio Branco, no Acre. Foram entrevistados 287 produtores rurais desses municípios sobre o uso do fogo em propriedades de variados tamanhos, desde pequenas às grandes. Se trabalharmos em cima disso, poderemos eliminar metade das queimadas, o que já seria um grande avanço.
Quem são os responsáveis por esses incêndios? Adriana responde que eles são praticados por vários atores: os pequenos agricultores, para fazer a plantação ou a limpeza de áreas agrícolas; o pecuarista, que faz a limpeza do pasto, além do madeireiro, que põe fogo nos acampamentos. A prática de utilização do fogo continua a mesma, mas o que mudou foi a floresta, que ficou mais sensível a incêndios.


