Campinas, SP, 31 (AE) - A Amazônia agora é a prioridade global da entidade ambientalista Greenpeace. O diretor do Greenpeace Internacional, o alemão Thilo Bode, divulgou hoje, no Rio de Janeiro, um relatório sobre as madeireiras multinacionais em atividade nos estados do Pará e Amazonas, com base em publicações recentes, levantamentos de campo e entrevistas realizadas até abril de 1999.
Segundo o relatório, a participação da madeira amazônica no total brasileiro passou dos 14% de 20 anos atrás para os atuais 85%. Em função da crise financeira no Sudeste Asiático e da valorização do real, o ritmo do avanço sobre a floresta diminuiu durante 1998. Agora, porém, com a desvalorização do real, a expectativa é de crescimento da ordem de 20% nas exportações de 1999. Como a atividade madeireira tem estreita vinculação ao desmatamento, pois indiretamente financia a abertura de novas áreas de cultivo e pastagens na fronteira agrícola, a consequência esperada do crescimento nas exportações é um aumento no ritmo do desmatamento.
O Greenpeace analisou de perto 36 áreas desmatadas recentemente e encontrou relações com madeireiras em 26 delas (72%). A extração de madeira também foi considerada a principal causa do desmatamento de 1.683.800 hectares entre agosto de 1997 e agosto de 1998, de acordo com o levantamento apresentado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, no início de 1999. A atividade madeireira é, por isso, considerada pelos ambientalistas como o principal fator de destruição ambiental na Amazônia atualmente.
O corte de árvores para retirada de madeira é 80% ilegal na região, ainda conforme o relatório do Greenpeace. Os planos de manejo, exigidos pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, Ibama, não são cumpridos e ainda há um desperdício de dois terços da madeira extraída, na hora do beneficiamento. As moratórias e revisões de planos de manejo, anunciadas seguidamente pelo Ibama e Ministério do Meio Ambiente tem pouco efeito, justamente devido a esta condição de ilegalidade generalizada. Mesmo a tentativa de acordo com os madeireiros, ensaiada pelo ministro José Sarney Filho, em março deste ano, esbarrou na dificuldade de fiscalizar os esquemas ilegais de extração.
A intenção de ignorar os conceitos de desenvolvimento sustentável e as tecnologias disponíveis de aproveitamento racional do recurso ficam patentes na análise das madeireiras multinacionais, feitas pelo Greenpeace. Pelo menos 25 madeireiras multinacionais figuram entre as maiores instaladas no Brasil. São companhias com sede em países europeus, norteamericanos e asiáticos, que, juntas, respondem por 12% da capacidade de processamento da madeira e metade do valor das exportações. Apenas uma delas, a Mil Madeiras, de Itacoatiara, Amazonas, tem certificação do Forest Stewardship Council, FSC, o que significa que a extração é feita de forma racional. Uma segunda empresa, a Gethal, também de Itacoatiara, deve obter a mesma certificação ainda este ano. Mas nenhuma das outras pretende buscar qualquer certificado ou selo ambiental.
Perfil - O Greenpeace fez um perfil das duas madeireiras com extração racional - Mil e Gethal. E de 13 outras, listadas entre as mais representativas: Amacol, Amaplac, WTK Florestal, Braspor, Cifec, Compensa, Eidai, Eldorado, Janus Brasil, Jaya Tiasa, Lawton, Nordisk e Robco.
Com base no que conseguiram levantar, os ambientalistas propõem que o governo não permita novas concessões para a extração de madeira nos remanescentes contínuos de florestas primárias da Amazônia, sem inventário biológico e sem um plano de conservação para toda a região, com zonas demarcadas de uso e restrição. Também propõem que as empresas já instaladas, mas ainda sem atividade de extração em florestas primárias, façam uma moratória até a realização do inventário biológico, plano de conservação e zoneamento. E, para as companhias em atividade de extração, que se exija a certificação do FSC, atestando que o ecossistema não vem sendo significativamente alterado.
Os membros do Greenpeace ainda apelam aos consumidores de madeira amazônica para que procurem adquirir apenas produtos de origem conhecida, certificados pelo FSC. E sugere ao governo brasileiro mais firmeza para interromper a extração ilegal e predatória da madeira, promovendo práticas madeireiras sustentáveis.

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