Macapá, 23 (AE) - O uso racional da biodiversidade, no Amapá, deixou a esfera dos discursos de palanque e passou para algumas iniciativas práticas, num movimento bem diferenciado de outros Estados amazônicos, mais envolvidos com o controle de atividades predatórias, como a exploração madeireira, o garimpo e a agropecuária de larga escala. Por ter uma história econômica mais ligada à exploração pontual de minérios - como o manganês da Serra do Navio e o ouro do Tartarugalzinho - e pela própria condição de isolamento físico de muitas de suas comunidades - ilhadas por rios ou manguezais - o Amapá escapou dos grandes desmatamentos e depredações ambientais.
O estado enfrenta os mesmos processos de migração e urbanização de seus vizinhos, com todos os problemas ambientais decorrentes: excesso de lixo, falta de saneamento básico, uso inadequado das terras, queimadas, contaminação dos rios, etc. Mas a escala é bem menor. E há disposição política de investir no desenvolvimento sustentável. "Aqui definimos a biodiversidade como uma atividade econômica, queremos agregar valor a nossas espécies, otimizar o extrativismo, incentivar a produção agroflorestal compatível com a preservação e viabilizar cadeias produtivas que levem para o mercado consumidor - interno ou externo - um produto final acabado", definiu o governador João Alberto Rodrigues Capiberibe.
Ele tem um programa de governo baseado nas premissas da Agenda 21, documento assinado durante a Rio-92, ao qual se submetem todas suas secretarias. Em vez de abrir as portas para os plantadores de soja, que tem invadido diversas partes da Amazônia, prefere investir na pesquisa e verticalização da produção de fitoterápicos, ou remédios feitos à base de plantas medicinais. O Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (IEPA), selecionou 74 espécies da flora local, tradicionalmente utilizadas, e testou a eficácia de seus princípios ativos. O próprio instituto tem se encarregado da produção e venda de produtos feitos com estas 74 plantas, enquanto o governo negocia com empresas farmacêuticas sua industrialização em escala.
Para as comunidades mais isoladas - distantes até 12 horas de barco da capital, como o Bailique - o IEPA tem um programa de plantio de 40 espécies medicinais selecionadas, com oficinas de treinamento que ensinam a preparar, dosar e utilizar adequadamente os remédios. "Muitas destas comunidades conhecem as plantas, mas estão perdendo a tradição do preparo adequado e acabam fazendo as chamadas temperadas, misturas de muitas ervas, que podem intoxicar o doente", explica a enfermeira Francinete Pena, coordenadora do programa Farmácia Viva.
Uma equipe composta de médico, enfermeira, nutricionista
farmacêuticos e técnicos de cultivo percorreu as comunidades, em abril deste ano, e levantou as doenças de maior ocorrência. Com base neste estudo, compuseram a farmácia a ser plantada em cada local. As comunidades se obrigam a cuidar das plantas e escolhem uma ou duas espécies para cultivar comercialmente. "A produção comercial é comprada pelo IEPA e usada na produção dos remédios", acrescenta Francinete. Em breve haverá uma cartilha para materializar o que é ensinado nas oficinas, e os remédios industrializados passarão a ser receitados nos postos de saúde.
"Ainda encontramos resistência do Ministério da Saúde, em reconhecer a eficiência dos fitoterápicos", diz o governador. Mas a resistência deverá ser quebrada com os resultados dos grupos de controle, constituídos e acompanhados dentro dos parâmetros da pesquisa científica mais tradicional. Cerca de 250 pacientes são acompanhados, alguns desde 1996, nestes grupos de controle. O maior grupo é o de diabetes do tipo 2. São 130 pacientes, com idade superior a 45 anos, que tomam um remédio à base de pata-de-vaca. "Fazemos o controle através de exames de sangue e urina e em 50% dos casos a diabete estabilizou", diz Francinete Pena.
Outra opção de uso racional das espécies nativas é o das castanhas. Há 5 anos, os castanheiros vendiam uma caixa com 120 quilos de castanhas pelo equivalente a R$ 8, trocado em mercadorias com grandes atravessadores do Pará. "Incluímos a castanha na merenda escolar regionalizada, garantindo a compra e incentivando a organização dos castanheiros em cooperativas", conta o governador. "Hoje a mesma caixa de castanhas vale R$ 55 e as cooperativas do Laranjal do Jari já produzem biscoitos de castanha, farinha e outros derivados, que agregaram valor ao produto florestal".
A industrialização ganhará novo impulso com o início da produção de óleo de castanha - rico em selênio e com baixo colesterol - para substituir o azeite de oliva. As primeiras mil garrafas do óleo foram produzidas na França e devem chegar a Macapá dentro de um mês. O governo está intermediando um acordo entre os castanheiros e pequenas empresas francesas para transferir a tecnologia de extração e instalar no Laranjal do Jari uma fábrica de óleo que passaria a abastecer o mercado brasileiro e a Guiana, que é uma grande parceira comercial do Amapá.

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