Amália deixou gravada música inédita com poema de Cecília Meirelles
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quarta-feira, 06 de outubro de 1999
Por Jair Rattner 
Lisboa, 07 (AE) - A fadista portuguesa Amália Rodrigues, que morreu esta quarta-feira aos 79 anos, deixou inédita uma música que tem como letra um poema da brasileira Cecília Meirelles. Trata-se de Soledad, gravada em 1988, com o pianista Antônio Pinho Vargas.
"Nós gravamos há dez anos. Queríamos fazer um disco dedicado a Cecília Meirelles, mas o dinheiro não chegou à família da escritora e o projeto ficou parado", conta Manuel Faria, músico e produtor.
Segundo Faria, existe ainda na editora EMI-Valentim de Carvalho, em Lisboa, uma gravação demo com as músicas gravadas por Alain Ouman, um dos músicos que compunham para Amália Rodrigues. Foi Ouman que teve a idéia de fazer este disco.
Soledad foi gravada com o pianista Antônio Pinho Vargas, especializado em música erudita. "Foi a primeira vez que toquei com Amália. Na época, a voz de Amália não estava na pujança dos 30 anos, mas a capacidade de dizer o texto era absolutamente comovente", afirma Vargas.
Na Sociedade Portuguesa de Autores, a explicação para o problema vem de uma confusão que ainda não foi desfeita. "A escritora Cecília Meirelles era representada pela SPAT. Mas existe no Brasil outra sociedade de direitos do autor, a SICAM, com que nós também temos um acordo, que representa outra Cecília Meireles. O dinheiro dos direitos de autor foram para a Cecília Meireles da SICAM", explica Luís Francisco Rebelo, da Sociedade Portuguesa de Autores.
Francisco diz que até hoje a confusão não foi corrigida por falta de um pedido da EMI-Valentim de Carvalho: "Se for feito o pedido, o dinheiro vai para a Cecília Meirelles correta. O problema é do Brasil que deixa que existam duas pessoas com o mesmo nome artístico".
Segundo David Ferreira, presidente da EMI-Valentim de Carvalho, podem existir centenas de músicas inéditas da fadista: "Na década de 50 e 60, Amália costumava ir à noite aos estúdios com os amigos. Levava peixe frito, arroz e vinho e ficavam gravando até de manhã." Um levantamento das centenas de músicas ainda inéditas gravadas pela cantora está sendo feito na editora há cerca de seis meses e só deverá ficar pronto no próximo ano. "Não é apenas listar as músicas, mas descobrir quem participou em cada canção", diz Ferreira.
O funeral de Amália Rodrigues deverá sair nesta sexta-feira, da Basílica da Estrela para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Hoje, dezenas de milhares de pessoas foram ao velório da fadista. Apenas na basílica, foram rezadas hoje cinco missas pela alma de Amália.
Na porta da igreja, os conhecidos contavam histórias da cantora. "Há 20 anos, o marido de Amália, Augusto Seabra, sofreu um acidente de carro no norte do país e um homem salvou o marido dela. Amália decidiu dar uma pensão vitalícia ao salvador do marido e há dois anos ainda pagava todo mês", lembrava o apresentador de espetáculos Chico Dias.


