Alusão de príncipe às Malvinas divide peronismo
Buenos Aires, 10 (AE-ANSA) - Uma alusão do príncipe Charles à autonomia das Ilhas Malvinas dividiu nesta quarta-feira (10) o governante Partido Justicialista (peronista), no segundo dia de visita do herdeiro da coroa britânica à Argentina.
"A Grã-Bretanha é uma potência usurpadora que não mudou sua política de usurpação. O que muda são seus modos", disse hoje o vice-presidente Carlos Ruckauf sobre a alusão de Charles.
"De modo algum pode ser tolerada a insinuação do príncipe de que os ilhéus podem ter direito à autodeterminação porque essa é uma armadilha que já foi usada pelos britânicos em outras partes do mundo", disse Ruckauf à Rádio América, de Buenos Aires. "Essa armadilha consiste em povoar com britânicos os lugares usurpados e depois pressionar para que eles se libertem e integrem a Commonwealth (a Comunidade Britânica de Nações)."
Na terça-feira à noite, Charles fez um chamado em favor da "convivência amistosa" entre os argentinos e os kelpers, como são conhecidos os habitantes do arquipélago, durante o jantar oferecido em sua homenagem pelo presidente Carlos Menem.
Ruckauf qualificou o discurso de "inadequado" para a ocasião. "Embora tenha modificado seus métodos, a Grã-Bretanha não mudou sua política de usurpação de território."
Historicamente, a Argentina sempre sustentou que os kelpers são uma população que foi "transplantada" pelos britânicos para o arquipélago depois de a Grã-Bretanha ter ocupado as Malvinas - ou Falklands, para os ingleses - em 1833.
Por consequência, os argentinos argumentam que uma eventual negociação sobre o futuro do território deve envolver apenas a Argentina e a Grã-Bretanha. Os habitantes das ilhas, cidadãos britânicos, rechaçam toda a possibilidade de associação com a Argentina.
O jornal de Buenos Aires La Nación interpretou hoje que o discurso do príncipe "freou todas as expectativas do governo argentino de abrir negociações sobre a soberania das ilhas". De acordo com o diário, as afirmações de Charles causaram surpresa e perplexidade em alguns membros da administração Menem.
O Clarín, um dos mais influentes jornais do país, destacou "o assombro e o incômodo" causados pelas palavras do príncipe. O Página 12 criticou a passividade de Menem, que "não fez nenhuma menção de reagir ao discurso".
A interpretação do ministro de Relações Exteriores da Argentina, Guido Di Tella - principal defensor da aproximação entre Buenos Aires e Londres -, porém, foi diferente. "A mensagem do príncipe deve ser recebida por seus verdadeiros destinatários, que são os habitantes do arquipélago", afirmou Di Tella. "O desejo dele de que os argentinos e os kelpers convivam em amizade coincide com o desejo do governo da Argentina. Em seu discurso, ele deixou claro para os habitantes das ilhas que não há mais motivos para preocupação ou medo." O chanceler empreende uma campanha para "seduzir" os kelpers, neutralizando a antipatia que eles nutrem pelos argentinos.





