Dezenas de alunas e alunos do Colégio Estadual Cívico-Militar Érico Veríssimo, em Cambé (Região Metropolitana de Londrina), promoveram um protesto em frente a unidade escolar nesta terça-feira (20) após a descoberta, pelos próprios estudantes, de câmeras escondidas em equipamentos apresentados como sensores de movimento voltados para áreas comuns dos banheiros masculino e feminino.

Os aparelhos foram descobertos após um aluno identificar as imagens transmitidas para monitores dentro da sala dos militares que trabalham no colégio. Segundo eles, as mesmas imagens chegavam até a sala da direção pedagógica.

De acordo com os estudantes, essas áreas eram usadas com frequência para troca de roupas. A indignação levou pais a registrarem boletim de ocorrência para que o caso seja apurado pela PCPR (Polícia Civil do Paraná).

Após um aluno fotografar as imagens dos banheiros nos monitores de computador da sala dos militares, as imagens começaram a proliferar pelos celulares de outros estudantes, até que uma adolescente do 9º ano decidiu investigar e arrancou o sensor de movimento do banheiro feminino. Ao abrir o equipamento, ela e outras amigas encontraram uma mini câmera escondida, voltada para a região em frente às pias. As imagens do desmonte também foram compartilhadas entre a comunidade via aplicativo de troca de mensagens.

O protesto começou por volta das 7h, horário que os alunos entram para a jornada matutina de aulas. Durante a manhã, alunos que entraram pra as aulas e os manifestantes trocaram informações sobre esclarecimentos que teriam sido prestados pela direção escolar, que não quis conversar com a imprensa.

Segundo as alunas, a indignação é que a direção da câmera grava imagens de um espaço que é frequentemente utilizado para troca de roupas. “Todo mundo sabia que a gente se trocava lá. Esses tempos atrás, teve um trabalho escolar de reciclagem e as meninas do 9A (nono ano A) criaram uma roupa de reciclagem. Elas todas se vestiram no banheiro, só fecharam a porta principal porque a roupa era grande e não cabia na cabine”, conta a aluna que decidiu explorar o objeto.

Outras alunas afirmam que, quando um estudante não tem traje adequado para educação física, a própria escola fornece uma emprestada, que precisa ser devolvida ao final das aulas. As trocas também eram feitas nos banheiros.

O relato é reforçado no boletim de ocorrência registrado pela Polícia Civil, no qual duas estudantes relatam que, há três anos, questionaram a instalação e foram informados de que seria um sensor para impedir que alunos fumassem nos banheiros. Porém, ao confirmarem que se tratava de uma câmera, as alunas manifestaram “abalo psicológico, revolta e indignação” e que se sentem violadas em sua intimidade, recordando que, há alguns dias, houve sessão de fotos de formatura e as alunas trocaram de roupa na área comum do banheiro.

Procurada, a Polícia Civil confirmou o registro do BO e informou que diligências serão feitas a partir do inquérito.

‘O que está acontecendo?’

Ainda pela manhã, algumas mães foram atendidas pela direção, como Marli da Silva Vinha, mãe de uma estudante presente no protesto. “Fui questionar, porque isso não pode acontecer. O diretor [auxiliar] me disse que o equipamento já foi retirado e que quem estava no portão [se manifestando] eram os alunos que gostavam de fazer coisa errada no banheiro. Eu perguntei: ‘Então, você confirma que havia uma câmera escondida no banheiro?’”, relata a mãe.

A indignação vai além porque a filha de Marli é uma das alunas que fizeram a roupa de materiais recicláveis. “E agora, a imagem dela, para onde foi? [estava] Seminua, lá dentro do banheiro. E os meninos, que também se trocaram [no masculino]? E quando as crianças precisam de uniformes, eles pedem para as crianças se trocarem no banheiro. Espera aí, o que está acontecendo?”, questiona.

Versão da escola

Após o ocorrido, a direção do Colégio Cívico-Militar Érico Veríssimo emitiu um comunicado à comunidade escolar em que afirma que as câmeras estavam direcionadas “às portas de entrada dos banheiros masculino e feminino, sem captar os espaços destinados às necessidades fisiológicas dos estudantes”.

De acordo com o texto, o aluno que teria invadido e obtido as imagens captadas entrou sem autorização na sala dos monitores militares e registrado a imagem compartilhada. “As circunstâncias desse acesso e da divulgação serão apuradas, preservando-se a identidade dos envolvidos”, informa.

O comunicado também considera a retirada das câmeras “atos de vandalismo” e adianta que “o colégio adotará as medidas administrativas cabíveis e os encaminhamentos necessários aos órgãos competentes, assegurando a apuração dos fatos e a escuta dos envolvidos”.

Versão do governo

Por meio de nota oficial enviada pela Seed (Secretaria Estadual de Educação), o NRE (Núcleo Regional de Educação) de Londrina disse que, assim que tomou conhecimento do caso, “orientou a direção sobre as providências, com atenção à privacidade e à segurança dos estudantes”.

A nota diz ainda que os equipamentos foram retirados e que não haveroa imagens armazenadas relacionadas aos equipamentos. Também afirma que uma equipe no NRE faria uma visita ‘in loco’ para verificar a situação e orientar os próximos encaminhamentos.

“A Seed-PR acompanha o caso e reforça que o monitoramento nas unidades escolares deve respeitar integralmente a privacidade, a dignidade e a segurança dos estudantes e de toda a comunidade escolar, assegurando a adoção das medidas cabíveis após a apuração dos fatos”, conclui a manifestação oficial do governo do Paraná.

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As escolas cívico-militares funcionam em uma parceria em que um diretor civil cuida da parte pedagógica e das decisões escolares, enquanto policiais militares reservistas atuam na segurança, na disciplina, na organização da rotina e no apoio aos alunos, sem ministrar aulas.

O modelo foi implementado pelo governador Ratinho Junior (PSD) em 2020, com colégios-piloto em Londrina, Curitiba, Colombo (região Metropolitana de Curitiba) e Foz do Iguaçu (Oeste), sendo ampliado para centenas de escolas a partir do ano seguinte.

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