Alunos de medicina têm aula de solidariedade
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quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Isabela Fleischmann <br> Reportagem Local 
Os alunos de medicina da UEL (Universidade Estadual de Londrina) tiveram de participar de uma palestra sobre solidariedade e amor ao próximo nesta quarta-feira (24), no Cine Com-Tour. A atividade foi uma proposta da Prograd (Pró-reitoria de Graduação) da universidade após o registro de casos de assédio, bullying e conversas inadequadas nas redes sociais, conforme explicou a coordenadora do colegiado de medicina, Ligia Martin.

Os fatos citados por Martin não são isolados. O caso mais recente aconteceu no ano passado, quando uma postagem na página do Intermed Paraná (competição esportiva universitária) no Facebook ofendeu alunas da UFPR (Universidade Federal do Paraná). No texto, um estudante de medicina da UEL chamava as alunas da instituição da capital de "vagabundas" e incitava assédio sexual.
"A punição individual corre em segredo de Justiça. O processo andou, teve desdobramentos, mas não podemos falar de punição", afirmou Martin sobre o caso. A coordenadora do colegiado garantiu, entretanto, que punir "não é o negócio", e que o que deve ser feito é trabalhar na formação dos estudantes. "A gente tem que plantar alguma coisa de bom para eles, e trouxemos essa palestrante porque ela fala sobre solidariedade e amor ao próximo", contou.
A palestra foi ministrada pela empreendedora social Renata Quintella, que criou a organização não governamental Instituto Nossa Jornada, cujo mote é "o que eu posso fazer por você hoje?" Por meio da ONG, ela une as pessoas que precisam de ajuda com quem pode ajudar. "É gente cuidando de gente", definiu.
Frase que se encaixa no conceito da medicina. Martin explica que conheceu Quintella em um evento em São Paulo quando procurava "alguém que viesse falar para os meninos a respeito de solidariedade". "O que ela falou me tocou profundamente. Tive a oportunidade de passear com ela pelo hospital e ver que às vezes seu semelhante está ali e você não sabe que ele não tem dinheiro para pagar a conta de luz, que a água dele está cortada", expôs.
Embora a atividade tenha sido obrigatória para todos os 480 alunos, a doação de materiais para a Casa de Apoio do HU (Hospital Universitário) foi espontânea, como explicou Martin. "Eles se organizaram para fazer alguma coisa a mais. Quando falei que era sobre amor ao próximo eles decidiram doar. Tudo vai para os voluntários do HU, que passam por dificuldades. Tem achocolatado, material de higiene e alimentos", contou.
Em seu passeio pelo CCS (Centro de Ciências da Saúde) da UEL com a coordenadora, Quintella espalhou sua frase de ajuda e conectou pessoas. "Chega da gente aprender pela dor, pela violência. A gente tem que aprender pelo amor", explicou a palestrante. De acordo com Quintella, a receptividade dos estudantes após a palestra foi marcante. "Vi que toquei o coração deles. Vieram falar que precisa ter mais ações assim. A gente precisa começar a olhar para o nosso colega do lado, de dentro da classe." Para a palestrante, os médicos precisam estar fortalecidos e ter suporte porque "nada se faz sozinho". "Nessa área em que se lida com mortes, com dores todos os dias, a gente se sente muito impotente como ser humano", disse.

A diretora de apoio à ação pedagógica da Prograd, Ana Márcia Carvalho, ressaltou que o evento buscou trazer palavras positivas. "Trazer a possibilidade de olhar o outro e ajudar o outro. Se aconteceu alguma coisa que não deveria ter acontecido, vamos aprender com ela e daqui para frente tomar atitudes diferentes", destacou.
Para o estudante Márcio Rodrigues Alves, a atividade foi "fundamental". "A gente sabe que recorrentemente acabamos aparecendo na mídia por umas infelicidades de comportamentos de uma minoria de alunos", afirmou. Para ele, essa minoria, no entanto, representa a tradição "opressora" da medicina da UEL. Alves está finalizando o quinto ano do curso. "Quando entrei eu era uma pessoa bem diferente do que sou hoje. Era mais ignorante. Ao longo dos cinco anos, mudei bastante minhas concepções. Fui me transformando para conseguir enxergar o que eu estava fazendo de forma diferente", relatou. Todavia, segundo o médico em formação, ainda se vê durante o curso "pessoas que têm o mesmo comportamento ano após ano, fortalecendo uma estrutura opressora em nome de algo hierárquico que não tem outro objetivo senão a manutenção de privilégios", alertou. Rubya Guimarães está no segundo ano e disse que se sentiu "muito tocada". Para ela, esse tipo de palestra é importante, já que em meio ao ofício da medicina pode-se esquecer "quem está ali [sendo atendido]".
CASOS DE INTOLERÂNCIA
Entre situações que ganharam repercussão na mídia no curso de medicina da UEL está um fato de 2005. À época, a 6ª Vara Cível de Londrina determinou que uma funcionária do HU deveria ser indenizada em R$ 30 mil por danos morais devido a comentários racistas e ofensivos publicados por ex-residentes no extinto site de relacionamentos Orkut. Em 2008, 14 estudantes tiveram a formatura suspensa após, alcoolizados, invadirem o HU e soltarem um rojão em comemoração pela colação de grau.


