O estudante brasileiro que chega ao último ano do ensino médio (antigo 2º grau) não sabe calcular médias aritméticas, resolver problemas que envolvam porcentagens nem lidar com juros simples. Também é incapaz, ao ler um texto, de compreender a relação entre uma tese e os argumentos que a sustentam, mesmo já tendo dez anos de estudos.
‘‘É triste’’, resume a presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Maria Helena Guimarães de Castro, responsável pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que atestou a piora geral do aprendizado de português e matemática no País. Os resultados dessa avaliação indicam que a pontuação média caiu entre 2% e 8% de 1997 a 1999.
Se o resultado nacional já deixa a desejar, a situação piora no Norte e Nordeste. Os concluintes do 2º grau obtiveram média de 280 pontos em matemática - a escala vai de 0 a 475. No Nordeste, a média foi de 265, e no Norte, 253. Conforme os parâmetros do Ministério da Educação (MEC), isso significa que os alunos dessas regiões não sabem usar frações nem relacionar metros e centímetros.
Em língua portuguesa, os concluintes do ensino médio conseguiram uma pontuação média de 266 pontos, em uma escala de 0 a 400 pontos. Novamente, os piores desempenhos ocorreram no Norte e Nordeste, onde os estudantes chegaram, respectivamente, a 246 e 256 pontos.
Os dados da 4ª série indicam que a ignorância dos concluintes do ensino médio é cultivada desde cedo. Prova disso é que alunos daquela turma só sabem fazer contas de somar e subtrair. No Nordeste e Norte, à exceção do Amazonas, e em Mato Grosso, nem isso conseguem, sendo incapazes também de ler as horas e identificar o valor de cédulas e moedas.
Quem domina as quatro operações matemáticas, incluindo multiplicação e divisão, são os estudantes da 8ª série. Em suma, o jovem conclui o ensino fundamental com nível de um aluno da 4ª série. Além disso, em todo os Estados do Norte e do Nordeste, as médias dos alunos da 8ª série e do 3º ano situam-se no mesmo intervalo de pontos. Os dois não conseguem interpretar gráficos nem o sistema decimal. Não sabem dizer se 1 é maior que 0,1.
Essa realidade é vivenciada por Izilda Leal Borges, psicóloga do Centro de Solidariedade do Trabalhador da Força Sindical. Das 38 mil pessoas encaminhadas mensalmente pelo órgão para entrevistas em empresas, só 6.500 conseguem um emprego. ‘‘O candidato acaba sendo recusado quando o patrão percebe que ele não tem raciocínio lógico nem é capaz de fazer uma conta de dividir sem usar a calculadora’’, afirma Izilda. E a maioria tem o ensino médio completo.
Na fila para procurar um emprego no centro, Elisângela Santos Silva lamentava a formação que teve. ‘‘Me formei no ano passado, mas se me perguntarem o que estudei, não sei.’’ A jovem de 18 anos lembrou que até a 5ª série as aulas eram boas e ela sentia estar aprendendo alguma coisa. No 3º colegial, uma decepção: ‘‘Só indo para a escola a gente já passava de ano. Só repetia quem tinha muitas, muitas faltas.’’
Com isso, o sonho de Elisângela em cursar uma faculdade parece cada vez mais distante. Ela prestou vestibular para educação física e nutrição na Universidade de Guarulhos (UnG), mas não passou da primeira fase. Triste para ela é ver que o problema não é exclusivo da sua antiga escola. Seu irmão de 7 anos, na 1ª série, não sabe ler nem escrever. ‘‘Ele não sabe nem reconhecer a letra A.’’

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