Aluno deve ser indiciado por morte de calouro da USP
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terça-feira, 29 de junho de 1999
Por Renato Lombardi 
São Paulo, 30 (AE) - O estudante do sexto ano de medicina Frederico Carlos Jana Neto, de 24 anos, o Ceará, poderá ser indiciado amanhã (01) no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) como um dos principais suspeitos da morte do calouro Edison Tsung Chi Hsueh, de 22. O calouro morreu afogado durante o trote violento da Faculdade de Medicina, da Universidade de São Paulo (USP), em 22 de fevereiro, na piscina da Associação Atlética Oswaldo Cruz.
Outros quatro estudantes, também veteranos da faculdade, poderão ser indiciados. Ceará deverá prestar seu depoimento oficial amanhã (01). O prazo da prisão temporária termina na sexta-feira, mas pode ser prorrogada por mais cinco dias.
O diretor da Divisão de Homicídios, delegado Paulo Roberto Robles, disse hoje não acreditar na hipótese de suicídio ou de morte acidental. "Pelo que foi apurado no inquérito, que já tem seis volumes, o rapaz não sabia nadar, não se jogou na piscina, foi jogado na água e isso não é acidente."
Caso seja indiciado por homicídio doloso (com intenção de matar), Ceará poderá ser condenado de 6 a 20 anos de prisão. Se o indiciamento for por homicídio culposo (sem intenção), a prisão é de 1 a 3 anos. A pena do culposo poderá ser acrescida de um terço se o acusado deixou de prestar socorro à vítima.
Robles explicou ainda que o delegado Marcelo Damas, responsável pelas investigações, tomou todas as providências para não cometer injustiças.
Na segunda-feira, a fita com a suposta confissão de Ceará foi levada para o Fórum de Pinheiros. A juíza Sílvia Martinez assistiu e em seu despacho, ao decretar a prisão temporária, afirmou que o estudante deveria dar explicações sobre suas declarações graves.
O advogado Guilherme Battochio, defensor de Ceará, não acredita no indiciamento. Para ele, não se pode indiciar por causa de uma confissão gravada, por brincadeira, durante uma festa de estudantes. "Os indícios que a polícia diz ter são acusações anônimas e o nome de meu cliente citado apenas numa carta e isto não é motivo para mantê-lo preso."
Maníaco - O estudante está na mesma cela que foi ocupada por Francisco de Assis Pereira, o maníaco do Parque do Estado. A vigilância é especial. Dois investigadores revezam-se para que nada ocorra com Ceará. "Estamos dando toda a atenção para o rapaz", informou Robles.
Ele tem chorado muito. Alimenta-se normalmente e nos dois dias de prisão já recebeu a visita de oito professores. Eles estão surpresos com a prisão temporária. Fizeram elogios ao aluno e disseram não acreditar que tenha provocado a morte do calouro. O delegado Damas negou-se hoje a dar informações sobre o andamento das investigações. Ele está tentando ouvir os outros veteranos que participaram do trote violento e estão citados na sindicância da Faculdade de Medicina. Quer ouvir a namorada de Ceará, o irmão dela e os quatro amigos que estavam na mesa da choperia quando a declaração do estudante foi gravada.
Cinegrafista - Hoje o cinegrafista amador Maury Marques Malva, de 27 anos, que gravou a suposta confissão de Ceará, esteve no DHPP para entregar uma cópia da fita e ser ouvido no inquérito. Ele contou à polícia ter sido contratado por um estudante que conhece por Mitsuo para gravar cenas da Festa do Pijama, na cervejaria Santa Cerva, no Tatuapé. A promoção era de um grupo de estudantes universitários. "Eram quase 200."
A festa foi no dia 20 de abril. As pessoas pagavam o ingresso e a cerveja era liberada. Depois de gravar em diversas mesas, Malva afirmou ter sido chamado por um grupo de oito pessoas. Foi entre meia-noite e 1 hora. "Eles começaram a dizer que eu teria um furo de reportagem e apresentaram-me Ceará e seus acompanhantes."
O cinegrafista adiantou ter encarado como brincadeira quando o estudante disse que "matara o japonês" e dera um "caldo nele". Malva não deu importância e até brincou com o estudante também fazendo perguntas sobre o caso da Faculdade de Medicina. "Me pareceu óbvio que foi brincadeira e todos estavam rindo muito."
Dias depois de ter entregue a fita para Mitsuo e cobrar R$ 100 por ela, o cinegrafista foi procurado por ele. "Mitsuo ligou dizendo que Ceará estava preocupado com o que dissera durante a gravação." Malva afirmou que ficou surpreso quando soube que a gravação fora apresentada pelo SBT. "Eu não entreguei, mas vendi ontem cópias para a TV Globo por R$ 200,00 e TV Record por R$ 400,00."


