Um monitor militar de um colégio cívico-militar de Cornélio Procópio (Norte Pioneiro) foi denunciado por oito alunas, com idades entre 11 e 13 anos, por assédio sexual. Os casos teriam acontecido entre 2022 e 2023, mas a denúncia só veio à tona na semana passada, após reportagem publicada pela BBC News.

A FOLHA teve acesso a parte do processo, que detalha os relatos das vítimas, que citam toques indevidos no corpo, como nos seios e nas coxas. A situação foi levada à polícia, que abriu uma investigação, hoje sob sigilo judicial.

O policial militar aposentado começou a trabalhar no colégio em 2021 e só foi desligado no começo de 2025, segundo dados do Portal da Transparência. Ele passou a ser investigado por importunação sexual e estupro de vulnerável. De acordo com a BBC News, ele teria sido afastado das funções de monitor após os relatos das alunas e passou a atuar no setor administrativo, mesmo após as denúncias.

Em um dos relatos que constam no processo judicial, uma das meninas afirma que o monitor “tinha um olhar malicioso, chegava nas meninas tocando no ombro e ela não gostava”, e que o homem “passou a mão em sua coxa”. Outra aluna relata que, enquanto estava com dor de cabeça, o monitor “começou a passar as mãos no pescoço dela, subindo para o cabelo”. Em juízo, uma estudante disse que o homem “a pegou pela cintura com um braço, para perto do corpo dele, e a apertou”.

O governo do Estado ampliou nos últimos anos o modelo de colégios cívico-militares, que hoje soma mais de 340 instituições. O formato integra práticas de gestão civil com a atuação de militares da reserva em funções administrativas e de apoio à rotina escolar.

O MPPR (Ministério Público do Paraná) informou, em nota encaminhada à reportagem, que “após a instrução processual, a 2ª Promotoria de Justiça de Cornélio Procópio manifestou-se pela absolvição”. “O processo, que tramita sob sigilo, está em andamento, com recurso pendente de julgamento no TJPR”, diz o MPPR.

A FOLHA também questionou a Seed (Secretaria de Estado da Educação) e a Sesp (Secretaria de Estado da Segurança Pública), que enviaram a mesma nota sobre o caso, afirmando que “todas as denúncias são apuradas conforme a legislação vigente e o vínculo funcional do profissional, sendo que servidores civis e militares são afastados de forma preventiva sempre que há registro de denúncia”.

“O Estado mantém política de tolerância zero a qualquer forma de assédio ou violência no ambiente escolar. O Paraná reafirma seu compromisso com a segurança da comunidade escolar e com a transparência", completa a nota.

A presidente da APP-Sindicato, Valquíria Olegário Mazeto, afirmou que a denúncia envolvendo um colégio cívico-militar de Cornélio Procópio não havia chegado previamente ao sindicato e só se tornou conhecida após apuração jornalística, já que o caso tramita sob sigilo judicial.

Segundo ela, o sindicato recebe relatos por meio de seu canal de denúncias, principalmente de estudantes, familiares e professores, mas atua sobretudo na orientação sobre os procedimentos, como procurar a direção da escola, registrar boletim de ocorrência e acionar o Conselho Tutelar.

“A partir dessas orientações, nem todas as denúncias que chegam inicialmente para nós temos condições de acompanhar os desdobramentos, como a abertura de investigações ou se o Estado faz o trato adequado. A gente sempre faz a acolhida e as orientações sobre os canais de denúncia que precisam ser acionados", reforça.

As denúncias em colégios cívico-militares do Paraná, contudo, não são novidade. Em dezembro de 2025, por exemplo, o MPPR denunciou um funcionário de um colégio cívico-militar de Capitão Leônidas Marques (Oeste) pelos crimes de estupro de vulnerável e ameaça, supostamente praticados contra três adolescentes.

A avaliação da presidente da APP-Sindicato é que há diferença no acesso às informações quando os casos envolvem servidores civis e quando se trata de monitores militares. Nos casos de civis, há acesso aos processos administrativos e às punições aplicadas, o que permite acompanhamento e retorno às famílias. Quando envolve militares, porém, o rito é diferente.

“Não temos o menor acesso se a denúncia foi formalizada, se foi aberto processo administrativo contra o servidor, se há denúncias correndo na Justiça comum ou na esfera criminal. Isso dificulta para nós o acompanhamento dos procedimentos adotados em casos de violência ou assédio cometidos por monitores policiais”, pontuou a presidente da APP-Sindicato.

REPERCUSSÃO

Na Alep (Assembleia Legislativa do Paraná), a deputada estadual Ana Júlia Ribeiro (PT) protocolou um pedido de informações para que o governo do Estado apresente, de forma detalhada, todos os procedimentos envolvendo denúncias de assédio sexual e outras violências supostamente praticadas por monitores em colégios cívico-militares.

A parlamentar é autora de um projeto de lei que prevê que, em casos de denúncias de assédio ou violência sexual, o servidor investigado seja afastado do ambiente escolar já no ato da instauração da sindicância, evitando que permaneça próximo das vítimas.

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