Alta procura faz cotação do dólar disparar e atingir R$ 2,14
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domingo, 28 de fevereiro de 1999
Por Cleide Sánchez Rodríguez e Mário Rocha 
São Paulo, 01 (AE) - O dólar voltou a disparar hoje, contrariando as expectativas do mercado. Sem fiscais do Banco do Central acompanhando as mesas de câmbio dos bancos e sem boatos, a moeda norteamericana fechou a R$ 2,14, com uma alta 4,90% sobre o fechamento de sexta-feira. Ao longo do dia, a cotação variou entre R$ 2,16 (máxima) e R$ 1,98 (mínima). Na média apurada pelo Banco Central (ptax), entretanto, o dólar teve uma queda de 1,76% em relação à cotação média de sexta-feira.
A resposta que todos procuravam não era apenas por que o dólar subiu hoje, mas por que não cai. E a explicação mais frequente de operadores e executivos financeiros era uma só: há demanda por moeda, mas faltam vendedores.
Até a presença do Banco do Brasil (BB) foi notada no mercado, comprando dólares e não vendendo a moeda, como ocasionalmente faz quando atua em nome do BC. Hoje, acreditam operadores, a operação foi para atender a necessidades internas da própria instituição.
A expectativa do mercado era que, passado o vencimento de contratos futuros de câmbio, na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), o preço do dólar caísse. Tais operações costumam influenciar o preço do dólar à vista na época dos vencimentos e, como o mercado é francamente comprador de moeda, interessaria forçar a alta do preço. A liquidação dos contratos de março já passou, porém a alta continuou com força ainda maior.
Dívidas - As saídas de recursos programadas para esta semana estão em torno dos US$ 250 millhões, segundo cálculos do mercado. A maior parte refere-se a um pagamento de euro-commercial papers de US$ 130 milhões, na sexta-feira, da Light Overseas. A compra do dólar deverá ser feita até quarta-feira, mas existem ainda outros vencimentos menores, cujos emissores são bancos.
Além disso, de acordo com operadores, alguns bancos precisaram comprar dólares (teriam sido duas instituições) para honrar contratos pré-estabelecidos de importações. As duas operações implicam remessa de recursos ao exterior.
Na ponta de entrada, não há nada. O movimento esperado para irrigar o mercado de dólares era um aumento no volume de exportações e a desmobilização das posições vendidas dos bancos. O primeiro é ainda considerado muito pequeno pelo mercado para suprir a demanda por dólares.
Vendido - A decisão de aumentar as posições vendidas, ao que tudo indica, não vem surtindo o efeito desejado. Em parte porque o mercado internacional continua fechado para o Brasil e não adianta as instituições poderem endividar-se mais em dólares se não há quem empreste.
Depois, explica Gilberto Faiwichou, sócio do Banco Rendimento, os investidores somente obtiveram ganhos com as arbitragens com dólar quando venderam, no fim de janeiro, com o preço entre R$ 2,10 e R$ 2,15, recomprando dois dias depois, quando a moeda recuou para R$ 1,90 - preço dos primeiros dez dias de fevereiro. "A partir daí, a cotação não parou de subir", disse Faiwichow. Isso leva os investidores a permanecer com os dólares em carteira.
Outra fonte de entrada de recursos no mercado mantém-se inoperante: a falta de diretrizes do BC no câmbio. Mesmo que o BC tenha consultado bancos dealers para conter a alta do dólar, o mercado é consciente de que falta munição ao BC para controlar os preços. "Munição, nesse caso, significa baixo volume de reservas e também de material humano, já que a verdadeira direção ainda não tomou posse", comentou um operador. "Quem está no comando do BC hoje está apenas interinamente."
Futuro - Mesmo assim, a pergunta sobre quando o dólar vai cair continua na pauta do dia. Há quem acredite que no curto prazo não há espaço para quedas, a não ser que haja uma atuação mais firme do BC, injetando dólares.
Existe um consenso entre executivos de que ele somente adotará tal medida depois de receber a segunda parcela do acordo financeiro com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Até lá, porém, o dólar pode alcançar os R$ 2,30 e criar um novo patamar de preço, da mesma forma que está correndo agora com o preço de R$ 2,00.
Se depender das apostas no mercado futuro na BM&F, o dólar permance em alta. O vencimento de abril fechou ontem em R$ 2,14, em alta de 5,52%.
O vencimento maio fechou em R$ 2,17, com alta de 6,11%. Considerando a cotação de fechamento de ontem, de R$ 2,14 , o dólar à vista (também chamado de pronto) acumula alta de 76,86% ante a cotação da véspera da desvalorização do real, quando o dólar valia R$ 1,21.
Depois da mudança do regime cambial, quando o governo adotou o sistema de livre flutuação, economistas e executivos do mercado afirmavam que a cotação justa do dólar seria em torno de R$ 1,65.


